Sabrina Noivas 133 - Backwards Honeymoon
 
Um casamento cinematogrfico... sem noite de npcias! Meses atrs, o fazendeiro Grayson McCall casou-se impulsivamente com Jill Brown para tir-la de 1 situao difcil. Tudo que houve entre eles foi 1 breve e excitante beijo, depois eles se afastaram, certos de que jamais se encontrariam de novo. Agora Jill e seu filhinho chegam a Montana, mais 1 vez em busca de ajuda. Ela precisa de 1 pequeno favor... que Gray assine os papis do divrcio! Mas quando ele a toma nos braos, os beijos que trocam so mais longos e ardentes. E Jill comea a suspeitar que o prncipe encantado no a deixar ir sem que antes ela cumpra seus deveres de esposa...

Obs: Sem Crditos , No achei o nome da Pessoa Responsvel pelo Ebook.

Dados da Edio: Editora Nova Cultural 2002
Publicao original: 2002. Gnero: Romance contemporneo
PRLOGO

Jill sequer sabia o nome dele. Ele a fitava com os olhos negros que pareciam danar no reflexo brilhante das luzes coloridas que os rodeavam. As dobras pesadas do vestido de noiva roavam nas pernas dele, e por um momento, ele pousou a mo no brao dela.
	Tudo bem?  resmungou ele em voz baixa e enrouquecida pelo sotaque de Montana.
Jill balanou a cabea em um movimento quase imperceptvel.
	Hu-humm...
	Voc no parecia feliz ainda h pouco  ele observou.
	Estou melhor.
	Otimo. Creio que j esto prontos. Voc tem certeza sobre isto? Podemos sair daqui, se preferir. Mande-os passear!
	No posso. Est no contrato. Estou substituindo uma amiga, e ela perder o emprego se eu no for at o fim.
	Entendo. Faz sentido. No conseguia entender por que voc fazia questo de participar de tudo.
	Estou bem  Jill insistiu.
Mas era mentira. Ela no estava nada bem. Sentia muito a falta do filho. Detestava estar em Las Vegas, to longe de casa, na Filadlfia. Naquela noite, ela se apresentara como Cinderela, no show de patinao no gelo, substituindo a estrela principal, que estava doente. Jill sempre sonhara com esse papel, mas ele viera com muitas condies.
Cmeras de televiso e olhares de estranhos registravam tudo. Um "consentimento" e uma "licena" para assinar. O mestre-de-cerimnias olhando maliciosamente para a figura de Cinderela exposta como em uma vitrine, vestindo o esplndido traje de noiva. Ele se referia a ela como "nossa celebridade, a noiva Cinderela" e encorajava os homens a comprarem uma rifa, cujo prmio era "casar-se" com Cinderela.
E eles compravam. Homens de rostos vermelhos, vidos. Bbados, muitos deles, ela desconfiava.
No esse homem. O homem que a ganhara por quinhentos dlares. Havia alguma coisa nele que inspirava confiana, tranquilidade... Os olhos negros, a postura slida, as perguntas sobre o bem-estar dela. E quando se olharam, prontos para representarem a farsa do casamento, as mos dele seguraram as dela com muita firmeza, tambm.
Ao lado, o imenso letreiro pulsava diante dos olhos de Jill: Maratona do Casamento de Cinderela. Ganhe a carruagem, o palcio, a lua-de-mel... e a noiva!
	Prontos, vocs dois a?  perguntou um homem vestido como um corteso de tempos passados, peruca de cachos brancos, cala de cetim e palet bordado.
Pela primeira vez, o pblico ficou em silncio. Os outros casais estavam prontos, esperando.
O mestre-de-cerimnias comeou a recitar palavras que Jill mal ouvia. Entendia algumas frases, mas no tinha tempo para assimil-las.
	...juiz desta corte para testemunhar... passo a passo cada casamento pela televiso a cabo... este casal... o vencedor leva tudo.
As cmeras se aproximaram mais, desviando a ateno de Jill. As luzes pareciam ainda mais brilhantes. Havia um espelho diretamente sobre sua cabea, enviando raios de luzes brancas que se refletiam no rosto moreno do estranho.
	Grayson James McCall, aceita Jillian Anne Chaloner Brown como sua legtima esposa?
Grayson McCall. Era esse seu nome. Jill olhou-o. E os olhares se ambos se encontraram, intensos, sustentando-se.
E mesmo sabendo que era tudo representao, brincadeira, uma farsa com fins publicitrios, de repente, Jill viu-se envolvida pela magia do momento e deixou-se levar pelas asas da imaginao.
Ela poderia ter deslizado no brilho ardente dos olhos dele, aninhando-se naquele manto de veludo negro. Como seria ouvir um homem como aquele, dizendo palavras assim, no como narte de um programa sensacionalista de televiso, um reality show, mas em uma situao verdadeira?
 Aceito  disse ele.
A voz de Grayson era baixa, grave, e seu olhar no se afastou do rosto dela por um nico segundo sequer. Aquele foi um momento que Jill jamais esqueceria.


CAPTULO I
Sam estava doente.
Jill desconfiara, pouco antes de o carro alugado no dia anterior quebrar, distante de Blue Rock cerca de quinhentos quilmetros. Agora, sentada com Sam em outro veculo, ela tinha certeza.
	Voc no terminou a histria, mame  ele choramingou.
Sam nunca choramingava. A menos que estivesse doente.
Jill encostou a mo na fronte dele. Estava quente.
	Eu terminei, sim.  Ela o enlaou pelo ombro, puxando-o para mais perto. O revestimento do banco do Cadillac estava brilhando pelo uso.	
	No, mame  ele teimou, um tom mais alto.  Voc no falou aquele pedao que diz que eles viveram felizes para sempre.
Seu filho tinha razo. Ela omitira esse final, e todo mundo sabia que um conto de fadas para ser realmente bom, tinha que terminar dessa maneira.
Jill suspirou.
O problema era que a histria que ela acabara de contar, no era um conto de fadas. Era uma tentativa desajeitada de explicar a uma criana de quatro anos e sem pai, que eles tinham feito a longa viagem de trem da Pensilvnia at Mon-tana s para resolverem uma situao, na qual ela nunca pretendera envolver-se.
Sam adorava trens. Ele no fizera uma nica pergunta sobre os motivos da viagem. Em Trilby, eles desceram e Jill alugou um carro na locadora mais barata da cidade e passaram uma noite maldormida em um motel barulhento de beira de estrada, e pela manh, seguiram rumo a Blue Rock.
Duas horas depois, o carro comeou a falhar, em meio a um barulho esquisito e uma onda de fumaa, at parar completamente. Portanto, um viveram felizes para sempre no se encaixava naquela histria.
Entediado, exausto e doente, Sam perguntou, finalmente:
	Aonde estamos indo?
Jill suspirou novamente.
Talvez, ela no se empenhara o bastante para que sua histria soasse convincente e confivel. No era  toa que Sam reclamasse do final feliz, uma vez que ela comeara descrevendo as luzes coloridas do salo, o memorvel vestido de noiva de Cinderela e o prncipe com chapu de cowboy que a tirara do pesadelo de um baile...
	Olhe! Parece Grayson! Logo ali, a cavalo  disse o homem
ao volante do barulhento Cadillac.  Vou encostar.
	Eu...  comeou Jill, mas logo se calou.
No que ela tivesse propriamente escolhido Ron Thurrell, proprietrio e nico funcionrio do nico posto de gasolina e oficina mecnica de Blue Rock. Ele era tambm o agente local da Triple Star Insurance e de duas outras locadoras de automveis de menor porte.
Jill precisara aceitar a ajuda dele. No tivera opo. Alm de prometer resolver tudo junto  locadora onde ela alugara o carro e de providenciar outro, quando ela precisasse, Ron oferecera-se para lev-la at o rancho isolado de Grayson Mc-Call, distante cerca de quarenta quilmetros do centro de Blue Rock.
Decididamente, Ron Thurrell estava sendo muito prestativo, mas Jill no simpatizava com ele. Tambm no queria demonstrar que Gray no imaginava que ela estava chegando. E principalmente, no queria revelar a Ron os motivos de sua vinda.
	Bem. Obrigada  ela respondeu.
Thurrell desligou o carro e Jill avistou o cavaleiro, atravessando o campo de grama alta. Ela desceu do carro e fechou a porta, para impedir que o vento forte de setembro chegasse at Sam. Sem desviar o olhar do cavaleiro, aproximou-se da cerca de arame farpado.
Encostando-se na estaca de madeira, ela se perguntava se seria conveniente acenar para cumpriment-lo  distncia. Ela no tinha certeza se o cavaleiro a vira, nem se era realmente Gray. Hesitante, ela acenou com a mo. Depois, tirou o chapu de l e acenou mais vigorosamente.
Grayson McCall, se era mesmo ele, viu e entendeu. Jill percebeu pelo modo como ele apressou os passos do cavalo.  medida que ele se aproximava, tornava-se mais visvel sua familiaridade com a sela. Mesmo no entendendo absolutamente nada sobre cavalos, vira-os apenas uma ou duas vezes de perto, Jill era capaz de reconhecer que o homem era excelente cavaleiro.
Ele mantinha o corpo em uma postura indolente, e Jill juraria que a posio era confortvel e controlada. Ele parecia um cavaleiro de armadura reluzente. Essa, porm, era uma comparao que deveria evitar a qualquer custo.
Um segundo depois, j tinha certeza de que se tratava de Grayson McCall. No o via desde maro, quase seis meses atrs, mas a lembrana dele ainda era surpreendentemente forte e viva. Ela no esquecera aquele corpo forte, rgido, gil, nem dos cabelos lisos e macios. Cabelos da cor das noites sem luar, que pareciam fios de seda entre os dedos dela. No esquecera dos maxilares salientes, que sugeriam teimosia, do nariz reto, dos olhos negros nem da pele morena.
Ela tambm no esquecera do beijo dele. Isso tudo, porm, era parte de um conto de fadas.
S restava saber se Grayson a reconhecera. Os cabelos castanhos estavam mais compridos e presos em um rabo-de-cavalo.
No ltimo encontro, ele vira uma Jill perfeitamente maqui-lada e vestida de noiva. Agora, ela estava de jeans, suter vermelho, jaqueta acolchoada branca e sem maquilagem.
Mas ele a reconhecera, sim. Jill percebeu pelas mudanas sutis.
Grayson se endireitou na sela e, inconscientemente, retardou o passo do cavalo.
A medida que ele aproximava, Jill reparou nos olhos dele sob a aba do chapu de cowboy. Havia um brilho amistoso e cauteloso, ao mesmo tempo.
Na cerca, ele puxou as rdeas do animal e Jill registrou os sons nada familiares da sela rangendo, dos arreios e dos estribos tinindo. Ela notou o modo como as pernas de Gray se moviam habilmente contra o couro da sela. Era como se cavalo e homem fossem um s.
O enorme cavalo castanho relinchou impaciente e empinou as patas dianteiras. Talvez, cansado e vido por descanso, no apreciara muito a repentina mudana de caminho. Ele cheirava a aveia e curral.
	Oi, Jill  Gray a cumprimentou com sua voz rouca. No parecia surpreso com a presena dela. Se estava, disfarava muito bem.
	Oi.  Ela o olhou e forou um sorriso.
	Que bom v-la de novo.  Ele tirou o chapu e pendurou-o na parte mais alta da sela, diante dele. O vento bateu em cheio nos cabelos dele, empurrando-os para trs.  Como vai?
	Bem, eu acho  Jill respondeu to embaraada quanto ele.  No to mal.
	Que bom. Fico feliz por ouvir isso.
	Aluguei um carro em Trilby, depois da viagem de trem, mas ele quebrou. Ento, o sr. Thurrell ofereceu-se para trazer-me, o que foi muito gentil da parte dele. Ele disse que conheceu seu pai e que fizeram alguns negcios juntos.
Ela fez com gesto em direo ao clssico Cadillac, ainda mais sem graa pelas coisas que estava falando.  .
Alan tinha razo por insistir que ela deveria procurar Gray e resolver tudo pessoalmente. Jill precisava enterrar os fantasmas. Os fantasmas das fantasias e sonhos tolos, que a atormentavam, havia seis meses. Alan compreendera aquilo melhor que ela mesma. Alan Jennings era um homem sensato, com a cabea fria presa ao pescoo.
Por isso, planejava dizer "sim" a um eventual pedido de casamento. Assim que ela resolvesse um nico e pequeno detalhe.
	Sinto muito pelos problemas  Gray afirmou.
Ele deveria imaginar porque ela estava l. S havia um assunto para ser resolvido entre eles. Chegara a hora de express-lo por palavras. Jill respirou fundo.
	Gray, desculpe por incomod-lo assim  ela comeou, em um tom de desculpas.  Em sua carta, voc disse que estava muito ocupado, mas eu precisava vir.  que, realmente, eu preciso do divrcio.
	Mame....  choramingou Sam de dentro do carro.
Gray e Jill se voltaram.
	Seu filho veio com voc? Sam, no ?
	.
	Ele parece cansado  observou Gray.
	Oh, ele est exausto!
	E uma viagem muito longa para uma criana.
	Ns vamos tirar alguns dias de frias, na volta para casa. Alan planejava encontr-los em Chicago, se os negcios assim o permitissem. Ficariam juntos dois ou trs dias.
	Entendo.  De repente, Gray sentiu uma inexplicvel ponta de decepo.
Percebendo a relutncia dele e interpretando-a do modo mais bvio, ela apressou-se em acrescentar:
	Desculpe-me por ter aparecido sem avisar.
	No tem problema, Jill. Realmente. A culpa  muito mais minha do que sua.
	Espero que voc entenda  ela continuou, descartando os protestos dele.  Eu no tinha como entrar em contato com voc. O nmero de telefone que voc me deu, estava desligado. Alm disso, achei que seria conveniente explicar-me pessoalmente.
	Ns alugamos a casa principal e o telefone ainda no foi ligado na casa antiga, onde pstamos morando agora  ele se justificou.
Jill intuiu que havia muito mais na histria do que ele estava contando, mas ela se concentrou no assunto que envolvia a ambos.
	Para comear, precisamos decidir em que Estado vamos dar entrada no pedido de divrcio  ela disse.
	Certo.
	Eu pesquisei algumas opes. J conversei com o advogado e cuidarei de documentao. Voc no precisa se preocupar com nada. Cuidarei de tudo.  Ela encolheu os ombros.  Eu vou voltar para Blue Rock com o sr. Thurrell e me hospedar em um motel. Seria possvel voc ir at a cidade mais tarde, para conversarmos? No ser uma conversa longa, tenho certeza.
	Mame...
	J estou indo, meu bem.  Ela voltou ao carro sem esperar pela resposta do homem que era, at o momento, seu marido.
Gray desmontou e prendeu as rdeas na cerca. Depois, apoiou a mo na estaca e impulsionou o corpo para pular a cerca de arame farpado. Ele passara a vida toda pulando as cercas daquele pedao de terra, de modo que o movimento no lhe custara mais do que um segundo. Ento, ele parou por instantes e ficou observando-a.
Jill abrira a porta do carro e estava debruada no banco. Gray tentou desviar o olhar dos quadris arredondados, mas no conseguiu. Ouviu-a falar com o filho em uma tonalidade meiga, carinhosa, e lembrou-se de como gostara da voz dela, em Las Vegas, no inesquecvel ms de maro.
Havia muitas coisas que ele gostara em Jill Brown. Porm, uma das coisas que, definitivamente, ee no gostava, estava sentada ali, no banco do Cadillac. Sem mas nem meio mas, por diversas razes, ele no estava interessado em uma mulher com filho.
Mesmo estando casado com ela.
A reao dele  viso daquele corpo atraente seria at interessante, desde que tivesse esse fato em mente.
	Vou coloc-lo na cama assim que for possvel, certo?  ela disse ao filho.  Vamos procurar um canal de desenhos para voc assistir e uma comida bem gostosa para voc comer, est bem?
	Minha cabea est doendo.
	Eu sei, meu amor. Eu trouxe remdio. Est na nossa mala.
	Ele est doente?  Gray perguntou, sentindo a relutncia engrossar-lhe a voz.
Certamente, Jill pensaria que ele era um sujeito insensvel e desnaturado. Ele at que gostava de crianas. S no gostava particularmente de crianas que vinham como parte do acordo. Como se fossem um brinde. Ou um dote. Ele no sabia que Jill tinha um filho quando casara-se com ela. Na verdade, ele s descobrira seu verdadeiro nome no momento dos votos de casamento. O mestre-de-cerimnias de Las Vegas s referia-se a ela como "Cinderela".
Cus, que loucura! Aquela fora uma noite de loucuras e quanto mais rpido sasse o divrcio, melhor. Jill fizera bem em t-lo procurado, e ele no deveria ter ignorado sua carta.
	Oi, Gray  Ron Thurrell cumprimentou-o e voltou a examinar um catlogo de compras.
Parecia um sinal para Gray e Jill que ele estava preocupado com seus prprios negcios, mas Gray no acreditou. Ele no gostava de Ron, e a antipatia era mtua. Ron era o homem que encontrara o pai de Gray ao volante do carro, na principal rua de Blue Rock, sofrendo um ataque cardaco. E fora ele quem chamara a ambulncia para socorr-lo, em dezembro do ano anterior. Entretanto, isso no contribura em nada para estreitar os laos de cortesia entre ambos.
Na verdade, Gray estava surpreso por Ron ter se oferecido para levar Jill at o rancho. Uma atitude inusitada que dava margem  desconfiana! E quanto aos negcios de Ron com o pai de Gray, at onde ele sabia, resumiam-se  gasolina que Thurrell fornecera para os veculos da famlia McCall.
Jill voltou-se e Gray notou sua aparncia abatida. Os cabelos castanhos estavam presos, com alguns fios caindo-lhe no rosto. Ao redor dos olhos verdes, as olheiras acentuavam seu cansao. A pele sedosa estava sem brilho e sem maquilagem. No que ela precisasse. Jill era muito bonita ao natural. Mas os lbios sensuais estavam plidos. Um pouco de cor a deixaria com a aparncia mais feliz.
Ela no estava nada bem, para acreditar que o motel de Blue Rock era o melhor lugar onde poderia acomodar o filho. Tempos atrs, Gray tivera que ir buscar um dos empregados do rancho que, depois de beber demais, metera-se em confuses. Por isso, ele sabia que aquele no era o lugar para uma criana doente se recuperar.
Jill no sabia disso.
	Espero que seja um resfriado passageiro  Jill respondeu  pergunta dele.  Assim que eu o acomodar em um lugar quente e calmo...
Absurdo! Definitivamente, Jill no conhecia o Sagebrush Motel, nem o bar barulhento que funcionava anexo.
.  Voc no pode voltar para Blue Rock  Gray interrompeu-a bruscamente.  Se conheo bem C.J. Rundle, ela ainda no instalou aquecedores nos quartos.
	C.J?
	Proprietria do Sagebrush Motel  explicou ele em voz baixa.   irm de Ron. E chamar aquele lugar de calmo  o mesmo que afirmar que Montana est com superpopulao.
	No h outro lugar? Um hotel, uma pousada?
	Esse  o nico motel de Blue Rock. Se quiser um lugar decente, ter que ir at Bozeman.
	Tudo bem.  Jill aceitou a sugesto.  Ento, por favor, indique-me o melhor lugar em Bozeman...
O movimento de cabea que acompanhou as palavras ditas com rispidez, foi vigoroso demais. Gray juraria que ela estava se controlando para no desmoronar, e provavelmente pensando que ele estava sugerindo...
	Hei, no foi isso que eu quis dizer!  ele apressou-se em esclarecer, sua simpatia por ela e pelo menino ressurgindo.
 Fiquem aqui conosco. Com minha me, meu av e comigo. Temos muitos quartos. No  nada luxuoso, mas seu filho... Sam... ter uma cama com lenis limpos e cheirosos. O forno est aceso e, a esta hora, minha me deve estar preparando uma sopa de legumes e carne assada. E  noite, depois que Sam dormir, poderemos conversar sobre o divrcio. Vocs podero ficar at Sam ter condies de viajar.
Gray fazia tudo parecer tudo muito simples. No verdade, porm, ele esperava que Sam se recuperasse logo, bem depressa. Quanto mais rpido ele e Jill cortassem o vnculo que os prendia, seguindo cada qual o seu caminho, melhor para sua paz de esprito.
Que diabos minha me vai dizer quando descobrir que sou casado com essa mulher?!
A pergunta provocou-lhe um arrepio na espinha.
	Eu... Nossa, Gray, seria bom demais!  Jill exclamou, e a voz melodiosa tremeu. Tambm tremeu a mo magra e delicada que afastou alguns fios de cabelo do canto da boca.   isso mesmo que voc quer? Ns no queremos incomod-los.
Gray no pretendia perder mais tempo com frases como "Sim, eu insisto" ou "Sim, voc se deu ao trabalho de vir at aqui".
Em vez disso, sua resposta foi abrir a porta do lado do passageiro e falar com Ron:
	Obrigado por tudo, Thurrell. Voc pode lev-los at a casa antiga? Voc sabe que estamos morando l, no ?
Muitas pessoas em Blue Rock sabiam. E provavelmente, quase todas tinham ideia do motivo tambm, apesar do silncio dele, da me e do av em relao  situao financeira da famlia.
Ouvi dizer  Ron respondeu.  Claro...  Ele se calou abruptamente, como se ele quisesse falar alguma coisa mais.
	Eu a encontrarei daqui a pouco, Jill  Gray avisou.  Apresente-se a minha me e ela a receber.
	Voc tem certeza que...
	Assunto encerrado.
	 que... Bem, eu o estou tirando de suas obrigaes, no ?  Ela mordiscou o lbio inferior.  Essa coisa de marcar o gado com ferro quente ou qualquer coisa assim.
Ele no se preocupou em esclarecer que, em Montana, geralmente no se marcava gado em setembro. Limitou-se a dizer, no mesmo tom formal e relutante:	
	Eu estava mesmo indo almoar. S que vou subir pela margem do rio para dar uma olhada na cerca do pasto norte. Voc chegar antes, mas  s dizer  minha me que eu a mandei e ela a receber muito bem.
Ela a receber melhor do que eu.
	O tempo est fechando  ele continuou.  E bom que se apressem, antes que comece a chover.
	Obrigada, Gray.
Sua voz traa o cansao fsico. Parecia que Jill s estava em p graas a uma ferrenha fora de vontade.
	Ouviu, Sammy?  ela perguntou ao filho.  Vamos passar a noite na casa de um rancho de verdade!
Ela entrou no carro e Ron manobrou, voltando  estrada estreita que levava ao rancho. O cascalho rangeu sob as rodas  do Cadillac. Por alguns segundos, Gray ainda observou o carro se afastando. Depois, pulou a cerca, soltou as rdeas de Highboy  e montou.
Sentindo que iam voltar para casa, o animal reagiu com boa vontade, o que deixou Gray livre para reletir.
Ele no deveria estar to surpreso por ter sido, finalmente, apanhado pelas consequncias do louco episdio de Las Vegas! Ele deveria ter imaginado que isso aconteceria, mais cedo ou mais tarde.	
E teria sido mais cedo, se a carta de Jill no tivesse chegado  no mesmo dia da conversa com o gerente do banco. Uma conversa decisiva. O sr. Hudson avisara-o que o emprstimo bancrio estava vencendo e que no havia a menor possibilidade de renov-lo.
Gray, ento, nem se preocupara em dispensar mais ateno  carta de Jill. Simplesmente, respondera com uma nica frase escrita l mesmo, no balco do correio:
Sinto muito. Realmente no tenho tempo para tratar desse assunto agora.
Uma frase seca, categrica.
Fora muita gentileza de Jill cham-la de carta. Depois, ele no pensara mais no assunto. Toda sua mente, em todos os momentos em que ele estava acordado, era consumida por assuntos mais urgentes.
O casamento deles fora to bizarro, to irreal, to inexistente em todos os sentidos que s vezes nem acreditava que tivesse acontecido de verdade. Que diferena faria se eles adiassem as formalidades do divrcio por mais algum tempo? Evidentemente, para ela faria diferena, sim. Do contrrio, no empreenderia uma viagem to longa e cansativa. E ele se sentia muito mal com isso.
Ele se sentia mal tambm em relao ao casamento. Mal e furioso. Furioso com ela, pelo modo como seu rosto assustado o atrara, naquela noite, e que o levara a agir to impulsivamente. Furioso com a emissora de televiso a cabo que organizara a Maratona do Casamento de Cinderela, em uma tentativa vergonhosa de pegar carona nos programas sensacionalistas.
Mas ele no ficara nem um pouco furioso com a noite. Por alguma estranha razo, o tempo que 'passaram juntos, oito horas, ao todo, era a nica lembrana brilhante que ele levara para casa, depois da malfadada viagem a Las Vegas, em maro.
Seis meses depois, seu corpo despertara imediatamente, latejando de desejo, s de v-la. Seis meses depois, ele ainda se lembrava de, praticamente, cada palavra que tinham trocado, cada gesto e cada nuance da risada dela.
Seis meses depois, porm, em seu prprio territrio, ele estava mais realista, mais ciente de sua prpria vulnerabilidade, e tudo o que queria, era a bela e carinhosa Jill Chaloner Brown fora de sua vida.

CAPITULO II

Jill agradeceu ao sr. Thurrell por ter tirado a mochila do carro e caminhou em direo  casa de Gray.
Thurrell manobrou o Cadillac e afastou-se rapidamente, mais interessado em observar algumas cabeas de gado no pasto prximo, do que em certificar-se de que algum a receberia.
Jill pegou o filho febril no colo e, com a mo livre, carregou a mochila. Sentia-se extremamente sozinha.
Olhou ao redor. A posio da casa no podia ser melhor. O cenrio magnfico de Montana reverenciava-a. As montanhas pareciam pintadas no cuf enormes e distantes demais para serem tocadas. Jill suspirou. Era uma paisagem de tirar o flego.
Distante, para os lados do leste, nuvens salpicavam o azul do cu. Pareciam nuvens das histrias de contos de fada, mescladas de centenas de tons de branco e cinza. Suas sombras mergulhavam no carpete verde da vegetao que cobria o solo. A oeste, as nuvens eram diferentes, mas igualmente bonitas, movendo-se rapidamente em direo  linha do telhado da casa.
Em meio a tanta beleza, a construo antiga, ainda que precisando de reparos, erguia-se majestosa. A pintura estava to gasta que o revestimento de tbuas tinha a tonalidade de cinza-prateado. Em alguns pontos da varanda que ocupava toda a extenso da casa, o piso estava afundando.
Mesmo assim, havia alguma coisa de fascinante na casa. A varanda era limpa e decorada com vasos de folhagens e gernios brancos e vermelhos. Rodeando a casa como companheiros fiis, meia dzia de rvores imensas e antigas, e algumas roseiras tambm antigas, cujos galhos recentemente podados, estavam amarrados ao longo do que restara de uma cerca.
Jill subiu os degraus da varanda. O vento frio balanava as folhas das rvores. As nuvens que voavam pelo cu, comeavam a mudar de aparncia. Grayson tinha razo. O tempo estava fechando. Sam no estava vestido apropriadamente, e o rosto dele queimava junto ao dela.
A urgncia de v-lo abrigado, aquecido, acomodado, protegido, superou o pnico que comeava a invadi-la. Ela bateu na porta com fora, no acreditando que tivesse algum em casa. Estava tudo muito quieto e solitrio.
Logo, porm, ela ouviu o som de passos. Segundos depois, uma mulher abriu a porta. Era a verso feminina de Grayson, usando jeans e camisa de flanela, para fora da cala. Tinha os mesmos olhos pretos do filho, nariz reto e cabelos grisalhos emoldurando-lhe o rosto. Talvez, tivesse tambm o mesmo sorriso.
Frente a frente com a sra. McCall, Jill sentiu-se sufocada por tudo que tinha para explicar e a necessidade de acomodar Sam o mais rpido possvel.
	Sra McCall? Gray man... mandou-me aqui...  ela balbuciou.  Ele foi... Oh, desculpe... Cerca do pasto norte... parece que ele falou alguma coisa sobre isso... Ele vir em seguida. Ele disse que a senhora...  Ela puxou pela respirao.  Bem,  o seguinte: meu filho est doente,, a febre est subindo a cada minuto... e eu gostaria de...
	Est bem, est bem. A sra. McCall sorriu com expresso compreensiva. Com a mo suja de farinha, ela pegou a mochila de Jill e colocou-a junto  parede da sala. A mesma mo deixou marcas de farinha na testa de Sam.  Voc est queimando, cowboy!  Ela enlaou Jill pelos ombros.  Entre, querida.
Jill apertou Sam com mais fora. Ele no pronunciara uma nica palavra, desde que tinham deixado Gray junto  cerca.
	Vamos para a cozinha  disse a sra. McCall.  O forno est aceso, e  o cmodo mais quente da casa. O garoto deve estar com fome.
	No sei se ele est com fome, mas agradecerei se a senhora me arrumar um pouco de gua ou leite para ele tomar remdio.
	Pobre criana! Fiz sopa e po de milho. S estava esperando Gray vir almoar.
	Ns o atrasamos, acho  desculpou-se Jill.
	Voc quer almoar?
	Assim que acomodar Sam.
	Vocs passaro a noite aqui, claro.
	Gray nos convidou.  Jill hesitou, depois admitiu:  Fiquei muito agradecida.
Sam resmungou contra o ombro da me:
	Mame...
	No  bom estarmos aqui dentro, quentinhos?  ela murmurou.
Ela se recusava a pensar na possibilidade de uma doena grave. Garganta inflamada ou gripe. Ela no conhecia nenhum mdico na regio. Quando poderia iniciar a viagem de volta?
Ansiosa, seguiu a me de Gray por um corredor comprido e limpo, at a cozinha grande e antiga. Havia um forno  lenha aparentemente sem uso. Ao lado, o forno eltrico que tambm no era novo. No armrio de madeira macia, uma coleo variada de pratos decorados, e nas janelas, as cortinas de padro alegre, florido.
	Sente-se, querida  disse a sra. McCall movendo-se pela cozinha imensa, mas aconchegante.
A mesa e as cadeiras eram antigas, de carvalho. Jill sentou-se com Sam ao colc^
	Onde vocs deixaram Gray?
	Bem... no tenho certeza  Jill respondeu.  A uns dois quilmetros daqui, talvez.
	Ele j deve estar chegando, ento. Ele vir at aqui para certificar-se que vocs esto bem, antes de tratar do cavalo. Voc ainda no disse seu nome, querida.
A repreenso foi to gentil que at parecia um cumprimento.
	Desculpe... Eu me chamo Jill. Jill Brown.
Jill Brown McCall? Melhor no. Afinal, ela desconfiava que Gray, como ela mesma at bem pouco tempo, no contara a ningum sobre a loucura do casamento.
	Prazer em conhec-la, Jill. E a voc tambm, Sam, meu amor. Sei que voc no est com disposio para falar.  Ela colocou um prato de sopa diante de Jill e preveniu-a:  Ainda est fervendo. Melhor esperar um pouco.  Depois, acrescentou.  Eu sou Louise.
De fora, vinha o som de botas subindo os degraus. Em seguida, o ranger da velha porta dos fundos e Gray apareceu.
Ele tirou o chapu, e Jill notou o nariz vermelho por causa do frio e os olhos pretos brilhando. Parecia que o mundo do rancho entrara na cozinha junto com ele. Espao e ar, o cheiro dos animais e da vegetao, a sensao de liberdade mesclada com trabalho rduo.
A parte do trabalho rduo, Jill entendia. Tambm tivera que trabalhar duro, grande parte de sua vida. Ela no tinha medo de trabalhar, e quando comeava uma tarefa, ia obstinadamente at o fim. Entretanto, tudo o que se relacionava com Gray McCall era novidade. E fascinante, de um modo elementar que a desconcertava e perturbava. Perturbava-a muito mais agora, do que em Las Vegas, quando ambos desempenhavam papis e no eram eles mesmos.
Com muito esforo, ela desviou o olhar, tentando ignorar os msculos delineados sob a camisa e o modo como ee se movimentava pela cozinha. At mesmo os sons que ele fazia. O ranger das botas, o ar que expelia para esquentar as mos.
Ele no deveria afet-la assim. No quando ela mal o conhecia. No quando sentira a relutncia dele ao v-la. E no pelo modo que as coisas estavam na vida dela.
	O vento est cortante!  ele disse.  Me, essa  Jill... e Sam.
	Eu sei. Acabamos de nos apresentar.
	A senhora pode arrumar as camas para eles enquanto eu levo Highboy para a cocheira?
	Voc no vai precisar dele, mais tarde?
	No, eu vou dar uma olhada no motor da picape  ele informou e Louise concordou com um gesto de cabea.
Jill percebeu que sua chegada causara uma mudana de planos j estabelecidos entre me e filho. Mas ela entendia muito pouco, ou quase nada, sobre ranchos para saber se isso acarretaria problemas ou no. Percebeu tambm que seus protestos provocariam mais aborrecimentos.
Oh, por favor, no retardem o nascimento daquelas dez dzias de bezerros, no deixem de marcar aquelas seiscentas cabeas de gado ou de consertar aqueles vinte quilmetros de cerca por minha causa!
Gray desapareceu pela porta da cozinha e a me dele saiu para arrumar a cama de Sam. Ele estava quase dormindo.
Aptico, engolia a sopa que Jill lhe dava s colheradas. O cheiro era to bom que o estmago dela j reclamava sua parte.
Antes mesmo de esvaziar o prato, Sam empurrou a colher e Jill no o forou para comer mais.
Louise McCall estava de volta.
	Tudo pronto para ele  ela informou.  J arrumei sua cama tambm, para no incomod-lo mais tarde. Voc precisa de mais alguma coisa, antes de lev-lo para o quarto?
	Apenas de um copo de gua, por favor. Para ele tomar o remdio. Sam, meu amor, voc fica um pouco aqui, enquanto vou pegar o remdio na mala?
Ele balanou a cabea, concordando, e sentou obedientemente na cadeira que Jill ocupara. Do fim do corredor, enquanto vasculhava a mochila em busca do remdio, ela ouvia Louise conversando carinhosamente com Sam.
	Estarei em casa a tarde inteira, meu querido. Se voc ou sua mame precisarem de alguma coisa,  s me chamar, est bem? Ah, eu tenho que lhe contar. Ns temos uma gata e ela costuma dormir na sua cama. Voc gosta de gatos, Sam? So criaturas interessantes, no? A nossa  velha e nem caa mais. Apenas gosta de procurar o canto mais quente da casa para dormir. Voc se importa de dividir a cama com ela?
Jill mordeu o lbio.
Que mulher! Ela devia estar se perguntando quem diabos somos ns e por que estamos aqui, mas no fez nenhum comentrio a respeito. Em vez disso, tudo o que ela quer saber  se Sam no se importa de ter um gato em sua cama...
Aparentemente, ele no se importou, pois enquanto Jill vestia o pijama no filho, a gata instalou-se confortavelmente na cama. E alm de no protestar, Sam ainda cumprimentou-a:
	Oi, Firefly.
Ele deslizou sob as cobertas e o animal se aninhou ao lado dele. Firefly ronronava to alto que a cama quase vibrava. Em segundos, ambos estavam de olhos fechados, adormecidos.
Jill ajeitou a manta de croch ao redor dos ombros de Sam e beijou-o de leve no rosto. Ele estava confortavelmente acomodado e bem tratado, como ela no ousara imaginar, uma hora antes.
Mais um ou dois dias, e ele, provavelmente, estaria bem. Era mais esperana do que cincia.
Ela foi at a janela, passando por algumas caixas de papelo, identificadas por etiquetas. Em muitas delas, lia-se: "Documentos do papai". Em outras, "lbuns da vov". O ar quente vindo do aquecedor colocado no cho contrastava com a paisagem fria l de fora.
As nuvens estavam mais baixas e pesadas, encobrindo o topo das montanhas como uma camada de neve. O vento balanava as estacas que amparavam as roseiras e assoviava por entre os galhos agulhados dos pinheiros, lembrando uma cano distante.
Ela avistou Gray atravessando o ptio. Ele caminhava com os ombros encolhidos e o chapu enterrado na cabea, protegendo as orelhas. Os passos eram rpidos, e tornavam-se mais apressados  medida que ele se aproximava de casa. Jill sentiu um forte e estranho impulso de correr para receb-lo, de tirar-lhe a jaqueta, de servir-lhe a sopa e perguntar sobre seu dia, como se ela fizesse parte de seu mundo.
Considerando que estava na casa dele para pedir-lhe o divrcio e ficar livre para casar-se com Alan, esses estranhos sentimentos no faziam o menor sentido.
Antes de descer as escadas, ela entrou no banheiro. A exemplo do resto da casa, o banheiro era antigo, mas impecavelmente limpo e brilhante, com toalhas bordadas  mo.
Depois, ela voltou  cozinha. Gray tomaya sopa e mastigava um pedao de po de milho.
	...no dava mesmo para consertar hoje porque o problema  maior do que eu imaginava  ele estava dizendo.  Wylie disse que havia consertado, mas pelo jeito no fez nada.  Ele no ouvira nem percebera a chegada de Jill.  A senhora e o vov tero que ir comigo, e eu nem sei como vamos rebocar a caminhonete. Por isso, quero consertar o vazamento de leo e verificar a transmisso, se no, ns ficaremos...
Vendo Jill parada na entrada da cozinha, Louise McCall interrompeu o filho e perguntou:
	Como ele est, querida?
Gray parou de comer e olhou para Jill. Ele a cumprimentou com um gesto de cabea, depois, deteve-se por um longo momento no rosto plido e nos olhos castanhos, antes de desviar o olhar. No esperou a resposta dela para Louise. Preferia demonstrar indiferena.
Sam est dormindo. Com... com Firefly.
De repente, sentiu que as lgrimas lhe corriam com profuso pelas faces. Tentou sorrir e desculpou-se.
	Que bobagem!  Jill continuou, enxugando as lgrimas com a manga do suter.  Chorar, eu quero dizer. Mas estou to agradecida a vocs. At mesmo a gata est nos dando boas-vindas.
	E por que no deveramos acolh-la, Jill?  Louise respondeu com cortesia. E ento, a curiosidade levou a melhor, e ela no resistiu.  Voc est em apuros, querida?
	Mame, deixe isso para mais tarde, sim?  Gray protestou, voltando  comida.
As duas mulheres o ignoraram. Jill sustentou o olhar da sra. McCall.
	Eu estive. Uma vez. Gray ajudou-me. Isso criou um problema e precisarei novamente da ajuda de Gray para resolv-lo. Prometo incomod-los o menos possvel. Eu no contava com a doena de Sam. Eu planejava voltar para casa amanh mesmo, e no entanto, agora, teremos que ficar mais alguns dias.
	No se preocupe com isso, por favor  Louise pediu.  Agora, venha tomar um prato de sopa.
O filho dela no s mostrou to solcito.
Seguiu-se um silncio levemente constrangedor, enquanto terminavam de comer. A sopa estava to deliciosa quanto seu aroma. Gray repetiu duas vezes, sempre acompanhado de fatias substanciosas do po de milho. Ele falou apenas uma vez durante a refeio.
	Vov no vem almoar?  ele perguntou.
	Ele levou sanduches e caf  explicou Louise.  Disse, antes de sair, que quer trazer aquelas vacas ainda hoje.
	Ele no deveria fazer isso sozinho.
	Ento, diga isso a ele!
Gray deu de ombros.
	Eu j disse.  Assim que terminou de comer, anunciou:  Eu vou at o galpo dar uma olhada na caminhonete, ou ento, no irei a lugar nenhum hoje.
	Posso ajudar?  Jill se ofereceu.  Sam no acordar to cedo. Ele sempre dorme bastante quando est com febre, de modo que no precisarei ficar aqui de braos cruzados.  Ela se voltou para Louise.  Voc disse a ele que ficar em casa a tarde toda, no, Louise?
Gray olhou-a ainda mais desconfiado do que antes, e Jill percebeu que ele estava avaliando as palavras dela.
	Tudo bem  ele aceitou, finalmente, ainda que bem de vagar.  Um par extra de mos sempre poder ser til.
Minutos depois, eles saam. Jill vestia um velho suter azul de Louise. Ela insistira, dizendo que o galpo era gelado, e que a jaqueta branca de Jill era bonita demais para sujar de leo.
	Voc entende alguma coisa de carros?  Gray perguntou, dirigindo a van branca da me, na mesma estrada de cascalho em que Jill chegara com Ron.
	Quase nada, mas pretendo aprender.
	No em uma tarde.
Ela encolheu os ombros.
	No, claro. Mas posso ajudar em alguma outra coisa.
	No se preocupe com isso.
	Mas voc disse que um par extra de mos sempre ajuda.
	Eu achei que voc queria vir comigo para fugir s perguntas embaraosas de minha me.
	Em parte, sim  Jill admitiu.  Mas eu disse que queria ajudar e quero mesmo.
O som que ele emitiu, certamente,, queria dizer "Obrigado".
Ou ento, um resmungo.
Jill ergueu o queixo e no esticou o assunto. Sentindo a tenso nos msculos da face, ela olhou de lado e reconheceu a mesma expresso no rosto de Gray.
Somos dois teimosos, ela pensou.
Teimoso e honrado, no caso dele. Teimosa e impulsiva, no dela. Foi isso que provocara o problema em Las Vegas.
Por favor, Sam, fique bom logo. Estou aqui para dissolver a magia, no para torn-la maior ainda.
	Aonde estamos indo?  ela perguntou.
	Ao galpo onde guardamos os veculos. Temos uma picape pesada e precisamos dela para consertarmos uma cerca. Algumas de nossas cabeas de gado esto aparecendo onde no deveriam.
	Como eu.
	Realmente, Jill, pare de pedir desculpas!  A impacincia enfatizou as palavras dele.  Eu sou to responsvel quanto voc por esta situao.
	Sua me deve estar curiosa para saber o motivo de minha vinda.
	Minha me  uma boa pessoa, mas  humana.
	Eu sei. Eu no me ofendi por causa das perguntas. Apenas no estou preparada para respond-las.
	Faz sentido.  Gray apertou o volante com um pouco mais de fora.  Posso fazer uma ou duas perguntas?
	Fique  vontade.
	Voc pretende casar de novo, no? Essa  a nica razo que consigo imaginar para tanta urgncia.
	Ah, sim.  Ela ouviu a prpria voz e percebeu que comeava a tornar-se cautelosa, quase relutante, no modo de falar.
	Um casamento de verdade, eu quero dizer.
	Eu entendi  ela disse.  Sim, um casamento de verdade. Bem, no estamos exatamente apaixonados, Alan e eu. Mas quando temos filhos, acabamos pensando de modo diferente. Ele sabe disso e eu tambm.
	Sim, imagino que seja assim mesmo. Esse rapaz... tem filhos tambm?
	Filhas adolescentes, Anna e Sarah. E elas vm em primeiro lugar. Elas e Sam. Para ns dois.
	Faz sentido.
	 mesmo? Eu fico aqui pensando... Voc deve estar muito bravo, Gray. Com tudo que est acontecendo. Essa confuso em que voc se meteu por minha causa... Na verdade, de certa forma, voc deve estar furioso.
	No, no estou  ele insistiu.  Pelo menos, no com voc. A culpa no foi sua. Nenhum de ns percebeu, no momento em que estava acontecendo, que era para valer... Que era real.
Real. Real e legal. Um tipo diferente do "real" que ela pretendia construir com Alan.
Real. A palavra ecoou na mente de Jill, e de repente, ela se perguntava se saberia mesmo o que esse "real" significava. Seus pensamentos voaram de volta ao passado...
Las Vegas. O show. Cinderela no Gelo. A realizao de um sonho. O sonho tornando-se realidade. S que, desde o incio, no fora bem assim. 
Jill patinava desde criana. Desde as lembranas mais remotas da infncia. A princpio, por imposio da me ambiciosa e autoritria. Depois, por amor, mesmo. O ringue passara a ser seu lar, sua alegria. A convivncia com a me, Rose Cha-loner Brown, era difcil e problemtica. Apesar dos esforos e dos cuidados do padrasto, David Brown, e da amizade das irms, viver com a me, era como caminhar em um campo minado.
Aos dezoito anos, Jill engravidou. Rose, ento, expulsou-a de casa junto com a enteada Catrina, da mesma idade de Jill. Suzanne, irm mais velha de Jill, recusou-se a permanecer na casa onde suas irms no eram bem-vindas.
"Ingratas", reclamara Rose, referindo-se s trs filhas. Ela costumava usar tambm outros adjetivos ainda menos elogiosos.
Depois disso, Jill desistiu dos treinos e das competies. As parcas finanas das irms no eram suficientes para manter a carreira amadora. Ento, ela decidiu ensinar patinao, para ganhar algum dinheiro, sempre sonhando com apresentaes em shows profissionais.
Tinha que cuidar de Sam, tambm. Ele era a melhor coisa que lhe acontecera, apesar da desiluso amorosa com o pai dele. Curtis Harrington. Curtis era seu colega de colgio e no quis saber da criana. Jill no sabia o que teria acontecido, no fosse o apoio das irms, Suzanne e Catrina. No podia esquecer-se tambm de Pixie, a excntrica prima de Catrina, que sempre a ajudara muito.
No ms de maro, logo depois do quarto aniversrio de Sam, ela teve  grande chance, finalmente. Andra, uma amiga da poca em que patinava nos ringues de gelo, na Filadlfia, precisou afastar-se do papel que desempenhava no Cinderela no Gelo, por causa de uma contuso. O contrato que Andra assinara, estipulava que, em caso de impedimento, ela perderia definitivamente o lugar no show, a menos que ela prpria conseguisse uma substituta temporria.
Foi a que Jill Brown entrou em cena, com os olhos brilhando de felicidade.
Ela deixara Sam com as irms e pegara um avio para Las Vegas. Alm de patinar fantasiada de rato, ela ensaiava para, eventualmente, substituir Cinderela. Ela odiou cada minuto daquele trabalho. Seus sonhos estavam sendo destrudos. Sentia-se ridcula por acreditar que o estilo de vida de uma show-girl, to incompatvel com as necessidades de Sam, poderia faz-la feliz.
O show era uma verso barata dos espetculos cheios de brilho e glamour da Disney. Os atores-patinadores eram mal pagos e maltratados, e o elenco vivia em eterno estado de tenso. Jill sentia demais a falta de Sam em todos os minutos de todos os dias. Saber que ele estava bem cuidado e cercado pelo carinho de Cat, Suzanne e de Pixie, no ajudava em nada.
Pelo contrato, ela deveria suportar mais seis semanas daquele suplcio!
Ela sentiu um fio de esperana quando foi chamada para substituir Trixie, a Cinderela oficial, acometida de forte gripe. Era o primeiro sbado de Jill em Las Vegas. Patinar como Cinderela era realizar um sonho. Mas no foi.
Na cama do quarto escuro, Trixie quase sufocara Jill com avisos e instrues, ditas com voz enrouquecida.
	E no esquea da publicidade, depois do show. Essa coisa de Maratona da Cinderela.
	O que  isso?
	O baile, o concurso, a televiso a cabo...
	No estou sabendo de nada disso  Jill protestara.
	Voc tem que se exifeir pelo salo de festas do hotel. Voc ser apresentada como uma celebridade, "a noiva Cinderela". Eles vo explicar o que voc dever fazer. Voc nunca ouviu falar disso? Nossa! H uma publicidade incrvel em torno do evento, das regras, dos prmios e tudo o mais!
	No, nunca ouvi nada. Ando ocupada demais, chorando no meu travesseiro, com saudade de Sam e arrependida por ter vindo.
	No  l essas coisas, mas sabe como ... o gerente ser capaz de mat-la se voc no desempenhar o papel at o fim.
	Eu sei.
Ento, ela desfilou no salo nobre do hotel, para o Concurso do Baile da Cinderela, sem ter a menor ideia do que se tratava realmente...
Chegamos.  Gray estacionou a van em frente a um imenso galpo de estrutura metlica.
Jill estava impressionada com a quantidade de construes agrupadas ao redor. Nem imaginava para que eram usadas. Para preparar o leite? Talvez, a famlia McCall criasse gado leiteiro. Por alguma razo, descartou a ideia.
Distante, na colina, via-se a imponente casa nova, agora alugada para reforar o caixa da famlia. Estava separada do restante do rancho por trs cercas e uma linha de rvores recm-plantadas, cujas folhas tinham a cor amarelada do outono.
Gray desceu da van, e Jill observou-o por alguns momentos, antes de descer tambm. Ele era um homem atraente, reto e forte como o tronco de uma rvore, tanto no corpo quanto no carter e no corao. Mas desde momento em que o vira, ela soube que ele estava sofrendo. Alguma coisa na vida dele no ia bem, e ele estava lutando contra as circunstncias.
Ela no conhecia a histria toda, apenas parte dela, graas  conversa naquela noite em Las Vegas, seis meses atrs. O pai dele arruinara as finanas da famlia com a compra de um rancho vizinho, pouco antes de sua morte. Como resultado, Grayson, a me e o av corriam o risco de perder as terras que pertenciam  famlia McCall por mais de oitenta anos.
At conhecer o rancho, Jill no conseguia entender o que isso significava. Agora, estava comeando a entender. O lugar era grande, bonito e caro demais para ser mantido. Tudo ali lembrava prosperidade, e era difcil de acreditar que estava  beira da falncia.
E pensar em Gray indo  falncia, de perder a luta para salvar o rancho da famlia, depois do golpe da morte repentina do pai, de repente, preocupou-a demais. Preocupou-a tanto, que sentiu um n na garganta e uma sbita dificuldade para respirar. Ela no queria pensar em Gray fracassando, depois de tanta luta, sem ser responsvel pela situao.
Era esse o verdadeiro significado de real. Ela compreendeu, finalmente.
"Real" no era o alucinante redemoinho da publicidade em torno do casamento da Cinderela, sob os refletores da televiso. O casamento era legal, conforme assegurara o advogado, mas no era real. Real no era nem mesmo o inesperado momento de silncio em meio a tanta loucura. O momento em que ela e Gray fizeram os votos, ainda acreditando que tudo no passava de uma encenao, e que se olharam fundo nos olhos e sentiram... a magia.
Nada daquilo era real. Mas isso... Isso era real. A luta de Gray para conservar o rancho da famlia era real. A vida que ele amava era real. No era  toa que ele queria assinar logo os papis do divrcio, que esperava que Sam se recuperasse rapidamente para que ela e o filho fossem embora para sempre.
Alan estava certo. Ele sabia que eu no esqueceria a magia daquela noite, com Gray longe de mim. Ele sabia que eu precisava vir at aqui e sentir na a fora da realidade.

CAPTULO III

Olhando sobre o capo da picape, Gray observava Jill. Fazia mais de hora e meia que ela trabalhava sem um instante de folga.
 No precisa exagerar, Jill!
Ela insistira em ajud-lo em algum trabalho de verdade. Disfarando a incredulidade, Gray pegara-a pela palavra. No fora difcil encontrar alguma coisa, mesmo porque trabalho era o que no faltava naquele galpo. Com a lixadeira, ela removia os pontos de ferrugem da picape, e depois, aplicava um tratamento anti-ferrugem. O veculo estava caindo aos pedaos, mas precisava resistir ao prximo inverno. Gray no tinha condies de troc-lo por outro mais novo, como seu pai planejara.
Muitos daqueles pontos j comeavam a corroer o metal, e Jill empenhava-se em remov-los com cuidado e preciso. Gray surpreendia-se com sua disposio para trabalhar. O rosto de Jill estava salpicado do p amarelo da pintura, assim como o velho suter de Louise que ela vestia. O cheiro acre do tratamento qumico enchia o ar.
O corpo de Jill movia-se no ritmo em que ela trabalhava. Os quadris atrevidos empinavam-se quando ela se inclinava para alcanar um ponto mais difcil. O suter colava-se ao corpo delicado, exibindo as curvas. De novo, a viso atingiu Gray em cheio, de um modo ao mesmo tempo delicioso e desconfortvel.
De tempos em tempos, ela afastava alguns fios que insistiam em cair-lhe nos olhos. Uma vez, ela tirou o elstico rosa que prendia os cabelos e tornou a coloc-lo para manter o rabo-de-cavalo firmemente no lugar. O movimento ergueu a curva sensual dos seios, e tambm o suter, deixando  mostra um centmetro da pele sedosa ao redor da cintura.
Gray conhecia algumas mulheres, esposas e filhas de ran-cheiros, inclusive, que teriam se recusado a estragar as mos com um trabalho to rduo, mas Jill cumpria sua tarefa com eficincia e seriedade.
Gray fechou o capo e aproximou-se de Jill. Ele fizera o possvel para consertar o velho motor. Precisava da picape para chegar a um dos pontos mais ngremes de todo o rancho. Ele fora  cavalo, naquela manh, esperando poder reparar a cerca com alguns rolos de arame farpado. Mas precisaria tambm de novas estacas, novos buracos, e, pelo menos, uma dzia de ferramentas pesadas.
Essa era apenas uma das tarefas que exigiam urgncia. Mas era impossvel atender sozinho a todas as necessidades do rancho. Ele no tinha mais empregados. S contava com o av fazendo o que podia, apesar da idade. Sem mencionar a me.
	Est tudo bem aqui  ela garantiu, endireitando o corpo.
Gray notou uma partcula do p amarelo na linha do maxilar, e sentiu os dedos formigando, com vontade de remov-lo. Ele se lembrava perfeitamente de como a pele daquele rosto bonito macia.
	Sei que est  ele respondeu.  Voc est fazendo um belo trabalho. Nunca imaginei que voc conseguiria tanto, em to pouco tempo. Mas vamos parar por hoje. J est escurecendo.
Jill piscou.
	J  to tarde assim?
	O tempo voa quando estamos nos divertindo  Gray brincou.
	Ha, ha!
	Enquanto ajeitamos tudo aqui, que tal tomarmos um caf e conversarmos um pouco?
	Tudo bem. Sobre o divrcio?
	E sobre o casamento. Acertar nossas histrias. O que voc pretende contar  minha me?
A um canto do galpo, havia um gabinete com pia e um fogo de camping.
	A deciso  sua, Gray.
	Estou pensando em simplificar.  Enquanto falava, ele levou uma chaleira com gua ao fogo, e colocou caf solvel em duas xcaras.  Vamos dizer que voc teve alguns problemas com um contrato em Las Vegas, que eu fui sua testemunha, e que agora, eu preciso assinar alguns documentos para voc poder regularizar a situao. Bem, isso no deixa de ser... verdade. Ela riu.
	Uma espcie de meia verdade, eu acho.
	Bem. Eu admito.  Ele abriu as mos speras e forou um sorriso.  Fico constrangido de contar  minha me que eu me casei com uma mulher que eu nem conhecia, s porque fiquei com pena dela!
	Voc no sabia que o casamento era legal.
	Naquelas circunstncias, creio que teria me casado, mesmo se soubesse disso.
Jill ergueu uma sobrancelha. No acreditava nele.
	Bem, eu lhe sou muito grata por tudo. Jamais esquecerei o que senti por ter me livrado daqueles homens, Gray. Quando vi que eles no tinham os quinhentos dlares, e voc, sim, respirei aliviada!
	Como voc sabia que eu no era um crpula, tambm?
Jill encolheu os ombros, os olhos verdes brilhando.
	Eu...  Ela se calou por instantes, depois ele ouviu aquele riso cristalino, radiante. Em seguida, Jill falou:  Ora, Gray!. Nunca me passou pela cabea uma coisa dessas. Eu apenas... sabia.
Ela franziu o cenho. Inclinou levemente a cabea para o lado, como se estivesse avaliando os atributos dele. Gray sustentou seu olhar, mas s por um instante. No sabia o que ela pensaria daquilo que poderia ler nos olhos dele.
Ele era um homem simples, grande, forte, sem a graa e a finesse dos rapazes da cidade. Usava roupas de trabalho durante seis dias e meio da semana, e suas mos eram speras e calejadas como duas lascas de madeira. No tinha aquela aura de glamour. E no era o tipo de homem com os quais ela estaria acostumada. Como o homem da Pensilvnia que queria casar-se com ela, por exemplo.
	Eu imaginei. Voc estava sentado to quieto, to pensativo...
	... Eu s havia entrado para tomar uma cerveja  Gray concordou, recordando.
A viagem para Las Vegas fora um ato de desespero. Ele queria conversar com o meio-irmo, Mtch, a nica pessoa que poderia emprestar-lhe o dinheiro para investir no rancho. Thurrell Creek pertencia a Wylie Stannard por mais de trinta anos, desde que ele o ganhara em uma aposta com o pai de Ron Thurrell, e estava praticamente abandonado.
Se Gray conseguisse algum dinheiro para aplicar no Thurrell Creek, se o tempo fosse camarada, se ele no perdesse muitos bezerros, ento, teria muitas cabeas de gado para vender, e esperanas de sair do buraco em que se enterrara por causa do rancho.
Gray no entendia o motivo de o pai ter repentinamente comprado Thurrell Creek de Wylie Stannard, em dezembro passado. O velho Wylie espalhara por toda regio que pretendia vend-lo. Seu pai teria parado para pensar em como a compra desequilibraria as finanas da famlia? Ou ele teria em mente alguma estratgia para transform-lo em um investimento lucrativo?
Nove meses depois, Gray ainda no sabia.
Por incrvel coincidncia, que ainda causava-lhe arrepios na espinha s de pensar, Frank McCall morrera naquele mesmo dia. Ele, Stannard e o advogado dos McCall, Haydon Garrett, tinham acabado de fechar o negcio. Mais tarde, a caminho de casa, Frank sofrera o que o mdico afirmara ser um enfarte fulminante. Ele morreu ao volante da picape, na rua principal de Blue Rock. Frank McCall morreu sem explicar o motivo da compra de Thurrell Creek, e como planejava administr-lo.
Mas se papai pensou que conseguiramos, ento, teremos que nos empenhar.
Era o que Gray pensava quando viajou para Las Vegas, e o que ainda pensava, mas no comentara nada disso com Mitch quando ele fizera o desesperado pedido de emprstimo. Isso no teria mudando em nada o resultado da conversa. Mitch recusara-se a ajudar.
Sentado defensivamente atrs da mesa de trabalho, no luxuoso escritrio no centro de Las Vegas, Mitch reagira furiosamente.
	Seu pai ordenou que eu ficasse bem longe de vocs  esbravejara ele.
	Sim, porque...
Atropelando as palavras de Gray, Mitch continuara friamente:
	Agora, que Frank morreu e voc precisa do meu dinheiro, o dinheiro que eu ganhei em negcios com meu prprio pai, a histria  diferente.
	No  bem assim, Mitch. Meu pai disse aquilo em um momento de raiva.  Gray preferiu omitir que a raiva de Frank McCall era mais do que justificada. Durante anos, Mitch causara muito sofrimento e dissabores  famlia, antes e depois de ir embora do rancho, aos dezenove anos.  Voc sabe que eles queriam que a poeira baixasse. Mame esperava que voc fosse ao enterro do papai. Ela lhe telefonou, implorou...
	Era tarde demais  Mitch interrompeu-o novamente, os lbios apertados.  Mame sempre foi muito sentimental. Ela at pode acreditar que o dio no continua alm-tmulo, mas essa no  a minha opinio.
Desgastado, depois da conversa com o meio-irmo, Gray preferira no pegar a estrada. Decidira pernoitar em Las Vegas e voltar para casa logo ao amanhecer.
J era fim de tarde, e Gray perambulara entre as mquinas eletrnicas do hotel-cassino, as emoes  flor da pele. Apostara cinco dlares na mquina caa-nqueis apenas pelo prazer de ouvir o rudo estridente, enquanto puxava as alavancas. Na ltima, ganhara seiscentos dlares, o que no melhorara em nada seu estado de nimo. Pelo menos, o prmio cobriria as despesas com a viagem.
Apenas para passar o tempo e no pensar nos problemas, decidira saborear uma cerveja e assistir ao show Cinderela no Gelo.
Foi quando viu Jill Brown pela primeira vez, patinando e colocando o prprio corao no papel-ttulo. Seu corpo era elegante, atltico e extremamente feminino na fantasia reluzente. Seu sorriso era to deslumbrante e eletrizante que poderia impulsionar o novo gerador instalado no galpo do rancho. Cada gesto seu era gracioso e eloquente. Ela era fantstica.
Quando o show terminou, a lembrana ficara gravada dentro dele, quente e viva. E o acompanhara at o salo de baile do hotel, para onde ele seguira com a inteno de tomar uma ltima cerveja.
	Eu estava matando o tempo Gray disse a Jill, ainda mergulhado nas recordaes.  Andando a esmo e sabendo que no conseguiria dormir. Eu no sabia que eles iam encenar aquela faanha publicitria.
	Voc no estava bbado, nem estava com os olhos grudados nos prmios, como a maioria daqueles homens.
Realmente, os prmios eram impressionantes. Um carro luxuoso, uma manso cinematogrfica e um cruzeiro de duas semanas para o casal que permanecesse casado por mais tempo. Cada casal teria que assinar um documento garantido que no se conheciam at o momento da cerimnia. A veracidade da afirmao seria devidamente investigada. O desenrolar do relacionamento seria filmado e exibido diariamente em um programa de televiso. O casal que resistisse por mais tempo, seria o vencedor.
De volta a Montana, Gray assistira a Maratona do Casamento de Cinderela por vrias vezes, nos ltimos seis meses, e acompanhava os progressos dos competidores. Dos dez casais que tinham comeado, apenas dois ainda estava participando. E naqueles dois casais, as divergncias eram claras e incontestveis. Um deles, praticamente, vivia s turras, mas os "cnjuges" no desistiam. A Amrica estava fascinada!
Jill e Gray no tinham tomado conhecimento das regras antes da cerimonia. Depois que souberam, no quiseram continuar competindo. Eles tinham percebido, sem necessidade de palavras, que o preo a ser pago pelos prmios era alto demais. Ambos assinaram o termo de desistncia quase instantaneamente. Minutos depois, a cmera direcionada a eles, deixava de film-los.
	Eu no entrei na disputa como as outras garotas Jill continuou, interrompendo os pensamentos dele.  Elas estavam desesperadas para serem escolhidas. Eu imaginei que voc no teria dado o lance por mim, se soubesse que algumas horas de diverso faziam parte do pacote.  Ela sorriu.  Acho que estava bvio demais que eu no planejava divertir-me com voc nem com ningum.
	Voc me proporcionou horas muito agradveis naquela noite, Jill.
	Eu... Bem, sim, e voc a mim, tambm.  Ela corou sob a p de ferrugem e pintura.  Mas voc sabe o que eu quero dizer.
	Sei.  Ele entendia perfeitamente.
Gray ainda podia visualizar a cena. Ao som do Tema de Cinderela, as candidatas entravam no salo de baile vestidas de noiva. Os homens faziam seus lances e depois, cada qual com sua Cinderela, danavam por dez minutos, a fim de conhecerem-se melhor.
Jill foi apresentada como a Celebridade Cinderela, ao lado do Prncipe Encantado, um ator de corpo esculpido, vindo de Los Angeles. Gray no tinha inteno de participar da encenao. Na verdade, ele estava praticamente no ltimo gole de cerveja, pronto para sair dali.
Mas, de repente, ele notou a expresso de Cinderela. Ao contrrio das outras, ela no queria estar ali. No queria tomar parte na brincadeira. Ela patinara divinamente, combinando alma, alegria, graa e energia. Mas ali, no salo, ela era a prpria imagem do desespero. O mestre-de-cerimnias chegou ao ponto de, com um comentrio bem-humorado e alguma su-tileza, pedir-lhe para sorrir.
No que foi atendido. O sorriso dela era largo, radiante, encantador... quando conseguia mant-lo.
Gray, porm, no se iludiu. Ele estava bem prximo do palco e notou que o sorriso no chegava aos lindos olhos verdes. Seu lance em Cinderela despertou os protestos de alguns homens, bbados demais para perceberem que ela no estava prometendo esticar a noite, como prometiam as demais garotas. Gray ganhou-a, finalmente, por quinhentos e vinte dlares. Assim, ele conquistara o direito de chegar ao que ele presumira ser uma falsa cerimnia.
Ambos assinaram alguns papis e fizeram alguns votos. Estranhos, aqueles votos. Por um insano, incerto momento, ele quase se sentiu como se estivesse falando srio. Talvez, por causa da atmosfera de luzes, msica e glampur.
Talvez, estresse e fatiga, tambm. Sua mente estava lhe pregando peas. O dia no fora nada fcil. S mais tarde, sob a lente da cmera de televiso, passado o momento de euforia, ele e Jill fizeram algumas perguntas e descobriram que estavam legalmente casados.
	Vocs no querem continuar?  um dos organizadores perguntara.
	No, no queremos continuar  ambos concordaram de imediato.
A conversa prosseguira mesmo depois que a cmera afastara-se deles.
	Bem, no espervamos mesmo que a nossa Cinderela tentasse vencer a competio. Ns a inclumos s para efeito publicitrio, Cinderela, mas o programa tem provocado tamanho impacto que, sinceramente, nem precisvamos disso.
Ele entregara aos dois um cheque modesto "para despesas". Como as custas do divrcio?
	 apenas uma formalidade  continuara o homem.  E vocs so felizardos! Os casais comuns no recebem nada, em caso de desistncia.
	Desistncia?  uma das noivas gritou, olhando espantada para Jll.  Voc j desistiu? Voc enlouqueceu, garota? Imagine! Essa  a chance que poder mudar sua vida! Voc j viu a foto da casa?  um verdadeiro palcio!
	Eu... eu... No, eu...  Jill estremeceu. A cmera encarregada de focalizar a outra noiva, estava praticamente em seu rosto.
Gray guardou o cheque no bolso da cala jeans, pegou na mo de Jill e tirou-a do palco, levando-a para longe das cmeras, da multido, do hotel. Por uns bons dez minutos, caminharam em silncio, passando pelas belas e coloridas placas de non e fontes luminosas dos hotis, antes de Jill murmurar:
	Obrigada.
Ento, eles encontraram uma mesa em um canto tranquilo  de um bar, e conversaram at o dia amanhecer.
	Agora, o divrcio...  De novo Jill interrompia as lembranas de Gray.  No ser assim to fcil quanto assegurou um dos organizadores, lembra-se? Conversei com um advogado sobre as vrias opes. J falei sobre isso, no?  Ela bebericou o caf que Gray lhe servira, sem contudo sabore-lo.  A anulao no seria aconselhvel. Em muitos Estados, para o casamento civil, s seria aplicada em caso de fraude. E Nevada parece estar fora de cogitao. Um de ns precisaria residir h, pelo menos, seis semanas l, algo que eu no tenho condies de fazer e nem voc, acredito.
O tom esperanoso dela deixava claro que, de alguma forma, Jill pensava que Gray teria condies. Mas ele precisava eliminar essa ideia imediatamente.
	Seis semanas?  Ele riu.  Neste momento, no tenho condies de passar seis horas longe daqui!
	Foi o que pensei.  Jill o fitou com expresso ansiosa.  Se optarmos pelo sistema legal de Montana, aparentemente, dever haver uma grave discrdia sem perspectiva de reconciliao, ou ento, teremos que estar separados e distantes um do outro por mais de cento e oitenta dias consecutivos.
	Ento, essa alternativa torna-se invlida, uma vez que voc permanecer em casa at que seu filho se recupere?
Depois de um breve silncio, Jill murmurou uma imprecao.
	Isso s nos deixa com a grave discrdia conjugal  observou Gray.
	O problema  que no existe nenhuma. Eu... eu realmente no teria coragem de acus-lo de nada, Gray. Isto , voc sabe, essa coisa toda s aconteceu...
	E voc quer consertar com o mnimo possvel de confuso?
	Exatamente. No quero fingir que estamos nos pegando pelo pescoo, entende?  Ela suspirou.  Bem, creio que s nos resta a Pensilvnia. Eu soube que basta um consentimentomtuo e o divrcio amigvel sai em quatro ou cinco meses.
	Isso est me soando bem.
	Exceto pelo tempo de quatro ou cinco meses. Alan quer... Ns dois  ela se corrigiu.  Ns dois queremos tocar nossas vidas.
	Receio que voc ter que se conformar com essa alternativa, Jill. No podemos fazer nada.
	Voc tem razo, Gray.  Jill no parecia feliz.  Bem, eu trouxe os papis da Pensilvnia, para o caso de nos decidirmos de com um acordo. Voc poder ler e assinar quando tiver um tempinho livre, e o resto poderemos resolver atravs de cartas.
Minutos depois, eles saram do galpo, em um clima de constrangimento e tristeza que no agradou nem um pouco a Gray.
Ainda dormindo.
Jill observou Sam adormecido e ainda febril. Precisaria descobrir se havia algum mdico por perto. No que j estivesse demasiadamente preocupada. Sam sempre comeava um resfriado com um dia de febre. Se, no dia seguinte, seu nariz comeasse a escorrer, mas sem a febre, ento, os sintomas seriam familiares.
Louise informara que Sam dormira a tarde toda. Firefly j no estava mais no quarto. Temendo que Sam se assustasse ao acordar em um quarto estranho, Jill deixou uma trilha de luzes acesas, desde o abajur na mesa-de-cabeceira ao corredor que levava  cozinha.
Louise estava rodeada por vrios tipos de comida. Carne assada, sopa, molho de macarro, frango assado e muitas tortas. Havia bifes na grelha e uma travessa de batatas assadas fumegando sobre a mesa.
Ela estava acondicionando as pores em potes plsticos e conversando com um homem de cabelos brancos. O av de Gray, certamente. Parecia cansado, e suas faces estavam vermelhas, queimadas pelo frio. Ao verem Jill, ambos se calaram.
	Posso ajudar?  ela se ofereceu automaticamente.
	J estou quase terminando  respondeu Louise.  Fiz um monte de comida para podermos comer bem, mesmo quando eu sair para trabalhar com os homens. Gray nos contou que voc se saiu muito bem, Jill. Ele disse tambm que voc no parou um minuto.	
	No d para ficar parada naquele galpo gelado  Jill brincou.	
	Quer tomar banho antes de jantar?
	Gray est usando o banheiro, mas antes de ele entrar, eu dei uma lavada no rosto, s para tirar a ferrugem.
Louise riu.
	Este  meu pai, Jill. O av de Gray, Pete Marr.
	Prazer em conhec-lo, sr. Marr.  Jill apertou a mo que Pete lhe estendia.
Ele a saudou com um gesto de cabea, depois voltou-se para Louise.
	Vou subir para tomar banho. Estou ouvindo Gray no quarto dele. Volto em um minuto.
Assim que ele saiu da cozinha, Louise disse:
	No ligue se ele no falar muito. Ele est cansado e, bem, creio que ainda no se acostumou com as mudanas que aconteceram aqui, depois da morte de Frank. Eles eram muito amigos.
Louise ergueu os olhos e Jill notou a angstia estampada sob o ar eficiente e maternal. Com esforo, conteve o impulso de correr e abraar aquela mulher, como se ela fizesse parte daquele cenrio e os problemas surgidos depois da morte de Frank McCall fossem dela tambm.
Foi com alvio que Jill recebeu a chegada de Gray. Ele vestia jeans limpo, camisa preta e cinto de couro com fivela prateada. Seus cabelos estavam midos e despenteados.
Alguma coisa dentro dela remexeu-se como uma serpente. Era uma espiral girando e despertando uma necessidade fsica que ela no sentia havia muito tempo. E no queria senti-la agora. No por Grayson McCall.
Gray olhava-a diretamente nos olhos, como se soubesse o que ela estava sentindo. Jill ficou toda arrepiada e teve mpetos de gritar: Pare! Pare de ler dentro de mira, e entender o que se passa comigo! No fao parte de sua vida, e nunca farei. No desperdice sua preciosa energia. Voc precisa dela para coisas mais importantes.
E como se ele tivesse perguntado por seu filho, Jill apressou-se em dizer:
	Sam ainda est dormindo. Sua me disse que ele nem se mexeu. Espero que o sono espante a febre.
	Voc acha que ele precisar de um mdico?  Gray perguntou.
	Se a febre no ceder at amanh, sim.
	Bem.
	H algum por perto?  ela quis saber.
	Em Blue Rock.
	Imagino que seja o mais prximo daqui.
Gray no respondeu.
Louise terminara de acondicionar a comida. Ela tirou os bifes da grelha e colocou-os na mesa, ao lado de uma travessa com salada e outra com batatas assadas.
Gray arrumou os pratos, os copos e os talheres. O av apareceu novamente e todos sentaram-se para jantar.
Conversaram pouco, mas o silncio que entremeavam a conversa no era constrangedor. A comida estava to boa, a cozinha to aconchegante, e o carinho entre Gray, a me e o av to forte e evidente, que no havia lugar para constrangimentos.
Terminado o jantar, Jill ajudou Louise a limpar a cozinha. Depois, tomou um banho quente e foi para a cama. Era cedo ainda, mas ela sabia que logo Sam a chamaria. Realmente, o garoto acordou por volta das dez horas, faminto.
Ele tomou sopa com torradas. A febre ainda no cedera e Jill repetiu a dose de remdio. Uma hora depois, ele tornou a dormir. Logo em seguida, Jill tambm adormecia.
Jill passara anos a fio acordando antes do dia amanhecer, para treinar no ringue de gelo. Por isso, no se surpreendeu ao acordar com as primeiras luzes do dia.
Logo ela descobriu que os rancheiros tambm madrugavam. Gray j estava na cozinha. O caf estava coando na cafeteira. No fogo, duas frigideiras, uma com ovos mexidos, outra com bacon. Em meio ao rudo da fritura, Gray no a ouviu entrar. Ela o cumprimentou, e ele se voltou, surpreso.
	Desculpe-me.  Ele abriu os braos em um gesto desolado.  Eu no queria acord-la.
	Voc no me acordou, Gray. Estou acostumada a acordar cedo. No se preocupe.
	 que eu imaginei que voc acordasse tarde.
	Por causa do que aconteceu em Las Vegas?  Ela sorriu.
 Aquilo no tem nada a ver comigo, Gray. Nunca mais cometa o erro de pensar que aquela era a minha vida.
	Eu sei. Acho que sempre soube. Eu no deveria ter ficado to surpreso. Quer fazer suco de laranja?
	Por que no?
Jill no se ressentiu pela sbita mudana de assunto. Gray estava ocupado. Certamente, ele queria ir trabalhar o mais rpido possvel. Mas, antes, precisava de um caf da manh reforado. Ela pegou algumas laranjas da fruteira e comeou a cort-las ao meio. O aroma ctrico juntou-se ao cheiro forte e salgado do bacon.
Depois de um breve silncio, Gray disse:
	Ns conversamos a noite toda, naquele bar. A esta hora, voc estava se preparando para dormir.
	E voc, para pegar a estrada  ela lembrou.
	E a, me bateu o sono. Precisei parar e dormir por algumas horas, tendo o volante como travesseiro.
	E eu dormi s cinco horas por causa do show das duas da tarde.
	Aquela noite foi uma loucura!  ele exclamou.  Passar a noite em claro...
Gray pegou o espremedor de frutas do armrio e entregou-o a Jill. As mos se tocaram e ambos pediram desculpas. Depois, riram constrangidos. Jill aguou os ouvidos, rezando para que Louise ou o sr. Marr chegassem para fazer-lhes companhia.
O beijo.
Era esse o problema. Era o motivo do constrangimento. Ambos estavam pensando no beijo.
Passar a noite conversando e abrindo o corao a um estranho com quem acabara de casar-se, j era uma loucura. Encerrar a noite com um beijo, era muito mais do que loucura. Essa parte jamais deveria ter acontecido.
Jill olhou pela janela. O dia j clareara, mas os primeiros raios de sol ainda no tinham surgido por trs das montanhas. Seis meses atrs, exatamente naquela hora, eles tinham sado do bar. Gray precisava voltar ao hotel para fechar a conta. O hotel em que Jill hospedara-se com a companhia, ficava na direo oposta. Por isso, a despedida seria ali mesmo, na porta do bar.
Fazia frio. O ar do deserto tornava-se terrivelmente frio  noite. O orvalho caa do cu azul-claro. Em maro, as madrugadas de Las Vegas eram lindas. Brilhantes, claras e frias. Jill ainda vestia o traje de noiva. Um modelo exclusivo de seda creme, emprestado por uma loja de noivas local, em troca de publicidade gratuita, e era maravilhoso. No exatamente quente, mas como Gray emprestara-lhe a jaqueta assim que tinham deixado o salo de baile, ela no sentia frio.
Deveria parecer estranho aquele esplndido vestido sob a jaqueta rstica, escura que quase chegava nos joelhos de Jill. A noiva de um cowboy, pronta para laar gado, em traje nupcial.
Jill lembrou-se da relutncia em devolver a jaqueta. No apenas por causa do frio. Nem por no querer fazer o caminho de volta ao hotel, com os braos e o colo expostos. Era por muito mais do que isso.
Ela sentia uma sensao especial de segurana, dentro daquela jaqueta. Os ombros eram largos demais. As mangas compridas demais. Mas o calor que vinha dela, era muito mais do que fsico. Era como se estivesse aninhada nos braos compridos e fortes de Grayson McCall.
Mas chegara o momento da despedida. Os ltimos instantes de magia. Devagar, ela comeara a tirar a jaqueta, estremecendo antecipadamente.
	No, no! Fique com ela  Gray protestara.  Mande-a pelo correio. Vou lhe dar meu endereo.
	No, Gray. Eu...
	Fique  ele insistira.
Jill concordara silenciosamente, s com um gesto de cabea. Os olhares se encontraram, e ela soube que Gray ia beij-la, segundos antes de acontecer realmente...
Droga!  resmungou Gray. Perdido nas lembranas, ele se descuidou e, ao retirar o bacon da frigideira, a gordura quente espirrou, queimando-lhe o dorso da mo.
Ele correu para a pia e colocou a mo sob a torneira, para que a gua fria minimizasse o dano. Teria que cuidar da queimadura para que no infeccionasse. Ele no poderia dar-se ao luxo de ficar impedido de trabalhar, nem por um nico dia. Mesmo com cuidados, o ferimento ia doer, e incomodar, durante o trabalho.
Ele sabia muito bem o motivo da falta de concentrao. Estava pensando no beijo. O ar tornou-se quente e pesado com a lembrana. E para agravar ainda mais, havia o impressionante e envolvente amanhecer de Montana bem diante dos olhos deles, alm da janela da cozinha.
Gray lembrava-se de cada segundo, de cada detalhe, mesmo depois de passados seis meses. Lembrava-se do nariz gelado de Jill, comprimido contra o rosto dele. Da boca macia, doce e morna, como ele imaginara que fosse. Dos dedos dela enroscados nos cabelos dele, do som abafado vindo da garganta dela, do farfalhar do tecido rico quando eles se moviam. De sua jaqueta abrigando-lhe o corpo delgado. Jill a devolvera pelo correio, como prometera, e ele a recebera dois dias depois de sua volta.
	Deixe-me dar uma olhada  ela pediu, pegando-lhe a mo.  Parece srio.
	gua fria  o melhor remdio.
	Eu sei, mas no apenas deixando a gua escorrer. Vou encher uma vasilha. Ser que vai formar bolha?
	Acho que no. Eu agi bem rpido.
	E verdade. S que a gordura endureceu na sua mo e, se no for removida, acabar grudando na ferida.
Ela lavou a tigela onde ele batera os ovos e encheu-a de gua. Gray colocou a mo na gua e Jill pingou algumas de detergente para remover a gordura que instalara-se ao redor das unhas e no dorso da mo at o pulso. A gordura mapeara a rea queimada. S ento, Gray deu-se por conta da preocupao de Jill. O ferimento era maior do que imaginara. E tudo porque ele se distrara, pensando no beijo.
E ainda pensava.
As mos deles tinham se tocado, exatamente como se tocavam agora. Eles entrelaaram os dedos, e as mos unidas foram encobertas pelas pregas do vestido de noiva. Ele se aproximara mais, pressionando as pernas nas dela. Gray queria prend-la em seus braos, guardar o momento e a lembrana para sempre.
A cena deveria ter sido curiosa. Na porta do bar, o cowboy e sua noiva Cinderela de Las Vegas beijando-se ao amanhecer, sob os primeiros raios de sol. Ela com a jaqueta dele, e ele praticamente envolto pelo vestido dela, pois, a saia era rodada e armada demais, e eles estavam muito prximos, os corpos quase colados.
Mas ele no se importara com o inusitado da cena. Ele no se importara com nada. Por um longo e mgico momento, nada mais existira na mundo, alm do corpo doce, dos lbios doces e da voz doce de Jill pronunciando o nome dele.
	Gray? Gray, acho que os ovos esto queimando.
	Sim, esto  ele murmurou.
Retirando a mo j sem gordura da gua, ele voltou ao fogo. Desligou o fogo, salvando os ovos e o bacon. Minutos depois, sentavam-se  mesa, para o caf da manh reforado. Apesar da ardncia da queimadura, Gray acreditava que as coisas estavam novamente sob controle.
Todavia, ele s respirou aliviado ao ouvir os passos de Louise descendo a escada e, depois, atravessando o corredor.
	Jill?  ela chamou assim que entrou na cozinha.
	Sim, Louise?
	Eu sa do banheiro e ouvi Sam agitando-se na cama. Entrei no quarto para v-lo e quando olhei no rosto dele, descobri o motivo da febre.
	O que ?
	Querida, seu filho est com catapora!
CAPTULO IV

Jill e Gray levaram Sam ao mdico, em Blue Rock. A consulta estava marcada para as onze horas.
A catapora alastrara-se rapidamente. Sam continuava com febre e sem apetite.  princpio, Jill olhava com certa desconfiana para o banho que Louise preparava para Sam. Depois, rendeu-se  sabedoria de uma me mais experiente.
Louise cortara a perna de uma meia-cala e enchera-a de aveia.
	Aperte-a na gua  ela disse a Jill, que estava ajoelhada ao lado da banheira.  Logo o amido se misturar  gua e aliviar a coceira.
Em contato com a gua, o amido tornou-se cremoso e Sam logo se animou para apertar a meia dentro da banheira.
	Posso, mame? E to engraado!
Concordando, Jill olhou para Louise.
	Eu no conhecia isto. Funciona mesmo?
	E infalvel!  Louise garantiu, parada na porta.  Meus dois filhos tiveram catapora nessa mesma idade, e no ficaram com nenhuma marca.
	Acho que minha me tambm no sabia disso, porque eu fiquei com marcas.
	S em lugares onde no so vistas  disse Gray por trs de sua me. Ao perceber a implicao sugestiva de suas palavras, ele corou e tentou consertar.  Bem, isto ... no que eu tenha... No h nenhuma em seu rosto, foi o que eu quis dizer. Sua pele ... Bem, estou pronto para irmos  cidade, Jill. Era isso que eu queria dizer.
	Tudo bem. Eu...  Ela estava mais embaraada do que ele. Erguendo-se, olhou ao redor, e apontou para Sam.  Ele est...
	Sem pressa. Vou tomar caf e comer alguma coisa. Ainda temos cerca de meia hora.
	Est bem.
	Vou com o seu carro, me. Voc vai tambm?
	No, mas tenho uma lista de coisas que voc poder pegar para mim.
Louise se afastou. Jill ficou aliviada com as palavras dela. Pelo menos, Gray no ia  cidade apenas por causa de Sam.
Eram dez horas, e desde o caf da manh, Gray estivera trabalhando, mas Jill no sabia em qu. Ela ouvira sons de mais de um veculo, sons de martelos e serra, sons de vacas mugindo e homens gritando.
Gray entrou no banheiro e lavou as mos na pia. Com ele, o mesmo cheiro de campo e de trabalho rduo que tanto a impressionara no dia anterior.
Gray era sensuall No havia outra maneira de descrev-lo. Pensar que ele estivera no campo fazendo servio braal nos pastos, no curral, lidando com motores de carro, madeira e animais pesados, causava um efeito muito sensual. Era alguma coisa que ela nunca experimentara antes.
O cheiro do leo de motor, animais, madeira recm-cortada era gradualmente absorvido pelo arpma do sabonete floral. Gray lavou o rosto, secou-o rapidamente com a toalha, e ento, os olhares se encontraram pelo espelho. Ele gelou. Os sentidos de ambos despertaram com a fora de um tornado.
	Vou tomar caf  ele avisou, virando-se para sair.
Jill estava parada no meio do banheiro, com os joelhos tr
mulos s de pensar em Grayson McCall, martelos e pregos.
Ele passou por ela e parou. Ergueu a mo e tocou o rosto delicado. Jill sentiu-lhe o quadril roando no dela.
	Tem um floco de aveia bem aqui.
	Oh... obrigada.
	Espero-a no ptio.
	Est bem.
Jill ainda continuou imvel por uns cinco minutos, depois de Gray sair do banheiro, esperando as batidas de seu corao voltarem ao normal.
No trajeto at Blue Rock, Jill viu-se envolvida pelas emoes.
Acomodado entre travesseiros, no banco traseiro da van de Louise, Sam adormecera imediatamente.
Ao passarem diante da magnfica manso que erguia-se no alto da colina, ela sentiu um aperto no corao. Certamente, a famlia McCall vivera anos muitos felizes naquela casa moderna e majestosa, antes da morte do pai de Gray. Deveria ter sido difcil e confuso aceitar a sbita reviravolta que ocorrera na vida deles. E provavelmente, nenhum deles tinha muito tempo para acalentar a dor ou a tristeza. Todos estavam trabalhando demais. No sobrava tempo para lamrias.
Por experincia prpria, Jill sabia o que isso significava. Ela passara pela mesma situao, depois que seu padrasto morrera. David Brown foi o nico pai que ela conheceu e amou, e ela teve que trabalhar muito, depois de sua morte.
Rose tratara logo de arrumar-lhe um emprego como professora na pista de patinao, para ajudar nas despesas. Jill tinha dezessete anos e ainda no terminara o colgio. Um ano depois, ficara grvida de Sam. Ela tambm no tivera tempo para lamentaes. Isso no significava que, vez ou outra, no fosse atingida por uma profunda sensao de sentimentos no resolvidos, que a deixava.deprimida por vrios dias, at perder-se em meio a outras preocupaes.
Gray freou bruscamente para desviar de um pssaro que pousara tranquilamente no meio da estrada. Ele praguejou em voz baixa.
	Estamos atrasados?  perguntou Jill.
	No, estamos no horrio.
Obviamente, aquela viagem no estava nos planos dele.
	Detesto atrapalhar sua manh de trabalho  ela se desculpou.
	No  isso. Eu estava apenas... pensando em meu pai.
Entendo. E eu estava pensando no meu...
David Brown fora seu verdadeiro pai em todos os sentidos da palavra.
	E neste lugar que seus pensamentos voltam, no  mesmo?  ela observou em um tom compreensivo.
	Parece que sim. Mas no  s isso. Eu ando to ocupado que, em certas horas, no penso nele. E ento, quando penso, quando tudo vem  minha mente de novo, sinto-me culpado.  como se eu o tivesse deixado, entende? Como se eu tivesse sado de frias e no lhe mandasse um postal sequer.
	Eu o entendo perfeitamente.
Ele lanou-lhe um rpido olhar.
	Aposto que sim.
Esse fora um dos assuntos que eles tinham conversado em Las Vegas. A morte do padrasto de Jill. Como Frankie McCall, David Brown sofrera um enfarte que roubara-lhe a vida pouco tempo depois. O que Jill e Gray tinham descoberto naquela noite em Las Vegas, fazia parte da magia. Mas agora, em Montana, o encanto estava fadado a dissolver-se, e no a fortalecer-se. Jill odiava pensar no que Alan diria, se ele soubesse de seu conflito emocional.
A atitude dele fora prtica, quase fria e impessoal, desde o momento em que ele soubera do casamento em Las Vegas e de como esse acontecimento estava vivo na mente dela.
	Claro, voc no poder aceitar meu pedido de casamento at resolver essa pendncia  Alan sentenciara.  V at Montana e encare a realidade do divrcio. Veja por si mesma como  esse rapaz longe das luzes de um salo de baile e dos refletores da televiso. Livre-se de um destino pior do que a morte. E talvez, voc consiga arrancar dele algum tipo de acordo.
	Acordo?
	Acordo de divrcio. Indenizao, digamos assim. Muitos rancheiros de Montana esto nadando em milhes.
	No creio que ele esteja. No neste momento.
	Acredite-me, ele tem condies  Alan insistira.
	Eu no preciso...
	Sam precisa, Jill. Pensei que concordvamos naquele ponto.
Nossos filhos em primeiro lugar, seja qual for o preo. Por isso, estou me empenhando para fechar bons negcios. Para garantir nosso futuro. O que voc conseguir desse rapaz, invista no futuro de Sam, faa um p-de-meia para seu filho, Jill. Ela no discutira. Considerara a ideia. Mas agora, descartava-a.
Em Blue Rock, Gray carregou Sam at a sala de espera do mdico. Na verdade, mdica. Dra. Blankenahip. Alta, morena, aparentando quarenta e poucos anos, voz macia e sorriso encantador. Ela s confirmou o diagnstico de Louise.
	 catapora, sim! E bem forte. Ele deve ter ficado muito exposto.
	Houve casos de cinco ou seis crianas na escola dele, umas duas semanas atrs  Jill explicou.  Mas eu no sabia que o perodo de incubao era to longo assim. Nem pensei que poderia ser catapora, at ver as manchas.
	Ele passou por algum problema?
	Bem, Sam teve um vero difcil. Tivemos um incndio em casa. De pequenas propores, mas o bastante para assust-lo. Mais do que eu imaginei. E agora, nestes dias, fizemos esta viagem. Deveria ser uma espcie de frias, mas...  Aps uma breve pausa, Jill continuou:  Ns no somos daqui. Chegamos ontem da Pensilvnia, depois de trs dias de viagem e duas noites maldormidas.
A mdica assobiou.
	Meu Deus, que aventura! E quando pretendem voltar?
Jill revirou os olhos.
	Quando? Esta manh, de acordo com nossos planos. Agora, a palavra  sua.
A dra. Blankenship suspirou.
	Lamento estragar seus planos. Eu no posso liberar este rapaz antes de, pelo nenos, dez dias.
	Dez dias...
	Mais dois ou trs dias para a catapora acalmar. Depois mais uma semana, no mnimo, para ele recuperar as energias e para o sistema imunolgico estabilizar-se novamente. s vezes, a catapora pode ter complicaes graves, e por isso recomendo que seja obedecido esse perodo de resguardo. Gostaria de v-lo antes de irem embora, para certificar-me de que ele estar em condies de viajar.
	J que voc est dizendo...
	Voc me parece relutante  observou a mdica.  Ser difcil vocs ficarem por aqui? Vocs esto na casa de parentes ou amigos?
	Estamos com os McCall. Eles moram em um...
	Com Louise, Gray e o pai de Louise?  O rosto da dra. Blankenship iluminou-se.  Eles so meus pacientes desde que cheguei aqui, dezesseis anos atrs. So as melhores pessoas do mundo. Olhe, fique trs semanas!
Jill deu uma risada. No ia explicar que no seria assim to fcil.
Dez dias  disse ela a Gray, quando ele foi busc-los no consultrio. Ele no respondeu. Nem precisava. O impacto da notcia ficou estampado no rosto dele. Gray no estava mais feliz do que ela.
Jill passou o resto do dia em casa com Sam. O tempo estava feio. Fazia frio e o vento era cortante. Por isso, no sentiu-se tentada a seguir Louise, Gray e Pete, depois do almoo. Eles tinham que transportar o gado, aparentemente, de um pasto para outro. A cavalo. Certamente, essa era uma tarefa que no poderia ajudar.
Ela deu outro banho em Sam e, enquanto ele dormia, lavou a loua e arrumou a cozinha.
Louise e Pete voltaram para casa logo depois das cinco horas, e pela janela do quarto, Jill avistou Gray recolhendo os cavalos. Ela reconheceu Highboy, e sabia que os outros dois eram Cirrus e Madie, mas no sabia quem era quem. Os McCall referiam-se aos animais como amigos.
Jill lia outra histria para Sam, quando ouviu Gray subindo as escadas. Sam sempre gostara de livros, mas com a doena, ele parecia mais vido pelas histrias infantis. Jill tambm gostava de ler para o filho. Adorava sentir o corpinho quente de Sam aninhado em seus braos, e os cabelos escuros roando em seu queixo. Adorava o som da voz dele questionando, fazendo as perguntas mais inslitas.
Ouviu Gray cantarolar enquanto dirigia-se ao banheiro e torceu para que no tivesse usado muita gua quente no banho de aveia de Sam.
Cerca de dez minutos depois, Louise gritou l do hall:
Pessoal, o jantar est na mesa.
Jill correu- para o banheiro, pensando no que Sam ia querer comer. Ele ainda estava sem apetite e ela no sabia se...
O pensamento foi interrompido por um "oh" abafado. Ela acabara de colidir com um torso quente e nu, no meio do corredor.
Opa!  exclamou Gray.
Ele espalmou as mos para ampar-la, e elas pousaram como duas conchas nos quadris de Jill. Ela arfou novamente e levou a mo ao peito, bem acima da curva dos seios. O gesto capturou a ateno de Gray, que parecia hipnotizado com o com o sobe-e-desce do peito, conforme ela respirava.
	Gray, eu no sabia que voc ainda estava no banheiro!
	Bem, eu quase no estava mais. Digo, eu j estava saindo.
De repente, ele se lembrou de que no fechara o zper da cala jeans. Normalmente, ele a deixava aberta at pegar uma camisa limpa no quarto. Todavia, abraar uma espantada Jill Brown, estando seminu, absolutamente no era uma situao normal.
Na verdade, a situao era to anormal, que seu corpo estava prestes a no perder a oportunidade. Seu corpo... partes dele reagiram de imediato. As mos, em vez de carem dos lados, deslizaram para onde podiam apreciar inteiramente a curva dos quadris cobertos pelo jeans.
Os ps, em vez de afastarem-se para o lado, avanaram um passo, depois recuaram de novo. Ele percebeu que sua cala, definitivamente, no ficaria no lugar, e que, no momento em que ela casse, a reao mais dramtica de tudo ficaria espantosamente evidente para Jill.
	Sua me avisou que o jantar est na mesa. Voc ouviu?  ela perguntou quando, finalmente, ele a soltou para colocar a cala no lugar.
Bem a tempo.
Encolhendo o abdmen, Gray conseguiu aboto-la com dedos trmulos. Dedos que teriam preferido abrir botes, e no fech-los.
Os botes de Jill.
Aqueles do decote "V" do cardig, enfileirados entre os seios arredondados, e que desciam at a cintura.
	Sim, ouvi  el murmurou, conseguindo passar por ela em direo ao silncio e  segurana de seu quarto.
Dez dias! Gray tirou uma camisa de dentro do armrio e vestiu-a. Cus, ele ainda estava tremendo! No conteve um gemido. Jill iria ficar em sua casa ainda por mais dez dias!
Mais dez dias para eles ficarem se cruzando, como duas pessoas inevitavelmente se cruzam, quando dividem o mesmo espao. Mais dez dias ouvindo o chuveiro, sabendo que era ela quem estava sob a gua, ensaboando a pele sedosa. Mais dez dias colidindo com ela pelos corredores, observando seu modo de comer, de falar, de rir, de beijar e abraar carinhosamente o filho.
Dez dias sabendo que apenas uma parede separava os respectivos quartos, que as roupas dela misturavam-se s dele na lavadora, sabendo que a encontraria ao entrar na cozinha, no final de todos os dias, e em todas as manhs, logo depois de calar as botas.
	Seria muito mais fcil se no fssemos casados  ele resmungou em voz alta.
Depois, riu e balanou a cabea. Absurdo! Se eles no fossem casados, ela no estaria no rancho.
Todavia, isso no invalidava a verdade.
Havia alguma coisa no fato de serem casados. Gray refletiu sobre o significado do casamento. Significava compartilhar. Compartilhar o mesmo espao, como ele compartilhava com Jill. Compartilhar as histrias. Eles tinham comeado a fazer isso, tambm, logo na noite em que se conheceram. Compartilhar as vidas...
E casamento significava mais uma coisa, tambm. Compartilhar a mesma cama.
Era naquele ponto que seu corpo discordava do crebro.
Gray gemeu novamente.
Mais dez dias...
	Leia mais para mim, mame  Sam pediu, depois do jantar.
	Voc no est com sono?
	Eu dormi o dia todo.
Jill decidiu no insistir em lev-lo para o quarto. Mesmo porque, tinha uma boa razo para mant-lo acordado. Louise e Pete tinham sado para visitar um amigo na cidade, deixando Gray e Jill sozinhos com Sam. Uma criana pequena e doente para fazer-lhes companhia, era melhor do que ningum.
	Est bem, Sam. Mas ter que ser as mesmas histrias.
Sam levara meia dzias de seus livros favoritos para distrair-se durante a viagem de trem, e Jill lera-os, no mnimo, umas trs vezes. Mas Sam parecia no se importar com a repetio.
	No faz mal.
	Temos alguns livros infantis em alguma caixa por a  lembrou Gray.  Ns o empacotamos quando nos mudamos da casa nova. So de quando eu era criana. Os olhos avermelhados de Sam iluminaram-se.
	Histrias novas? Oba! Voc faz vozes?
	yozes?
	E! Mame faz vozes engraadas nas histrias. E voc?
	Querido, Gray vai emprestar seus livros e no ler para voc  Jill interveio.
	No? Ento, voc l, mame.
	Vou procurar a caixa  Gray prontificou-se de imediato, e Jill notou sua expresso de alvio.
Ele no se sentia  vontade com Sam. Jill percebera desde o incio. Ele se mostrava distante, cauteloso. Desconfortvel. Educadamente, fazia a pergunta certa sobre o estado de Sam, nada alm disso. Ele no procurava fazer amizade com o garoto, como Louise o fizera com facilidade.
Jill esforava-se para no se sentir desapontada com a atitude de Gray. Fazia parte da realidade sobre a qual Alan referira-se. A realidade de como o rancheiro-salvador era no dia-a-dia, longe das luzes coloridas de Las Vegas. Aparentemente, ele no colocava os filhos em primeiro lugar, como Alan.
Preciso telefonar para Alan e contar-lhe o que est acontecendo. Ele planeja nos encontrar em Chicago.
	Posso usar o telefone?  ela perguntou a Gray.
Do primeiro degrau da escada, ele se voltou.
	Claro.
	E interurbano.
	Fique  vontade. Ligue do meu escritrio.
Como nos demais cmodos da casa, no escritrio tambm havia muitas caixas e pacotes. Sem deter-se para ler as etiquetas, Jill foi direto para o telefone e fez a ligao.
	De qualquer modo, eu no poderia ir a Chicago, esta semana  disse Alan, depois de ouvir sobre a catapora de Sam.  No posso me afastar dos negcios. Tenho uma grande venda engatilhada e no posso perd-la por nada neste mundo.
Em vez de deixar Jill feliz, a notcia s fez aumentar a sensao de distncia entre ela e Alan.
Ele quis saber sobre o divrcio, se o tal McCall criara algum problema, se fizera alguma proposta.
	Voc j conversou com ele sobre a indenizao?  ele perguntou, por fim.
	No, Alan. Ainda no conversei com ele sobre a indenizao  ela repetiu, sua voz revelando a insatisfao pelo rumo que a conversa tomava.
Ela ouviu um som s suas costas. Gray estava parado na porta do escritrio. Ele ouvira suas ltimas palavras. Sua expresso no deixava dvidas. Seus olhos estavam parados e escuros, os lbios, duros e comprimidos. Ele no disse nada. Nem ela. No precisava. Afinal, que importava se ele a considerava uma mercenria?
	Mas voc vai pedir, no vai?  perguntou Alan do outro lado da linha.
	No sei.  Ela tratou de cortar o assunto. No queria discutir com Alan. No naquele momento.
	A caixa com os livros est aqui.  Gray entrou no escritrio.  Lembro-me de t-la visto, outro dia.
Ele leu as etiquetas e logo encontrou a caixa que procurava. Pegou-a e levou-a para fora do escritrio.
Quinze minutos depois, Jill desligava o telefone. Demorara mais do que imaginara e Sam deveria estar impaciente, na. sala de visitas.
Mas no estava. Voltando  sala, deparou-se com Gray lendo para Sam. Relutantemente? Nem tanto. Se estava, ele disfarava muito bem.
Estavam sentados no sof coberto por uma manta colorida de croch. A voz de Gray era calma, pausada, melodiosa e a histria era contada em versos. O livro era parte de uma coleo de clssicos infantis, com ilustraes caprichadas e interessantes. Ele pronunciava as palavras cuidadosamente, como se estivesse vivendo a histria, como se a voz do cowboy rstico transformara-se em msica.
Eu farei guirlandas e brinquedos para voc cantar Farei canes e estrelas para seu sono embalar.
S que Sam no o ouvia mais. Ele adormecera. Gray ainda no percebera. A cabea de Sam estava apoiada no brao dele, ligeiramente pendida para a frente. Jill no se atrevia a interromper a leitura. No mesmo tom paciente e carinhoso, ele chegou ao ltimo verso.
Viveremos juntos e felizes para sempre
Entre dias verdes na floresta e dias azuis no mar.
Devagar, ele levantou a cabea, olhou para Jill e sorriu. Ela apontou para Sam e agradeceu:
	Obrigada.
	Por qu?  S ento, ele percebeu que o menino adormecera.  Acho que Robert Louis Stevenson e eu o entediamos.
	Voc o ninou,  isso  ela o corrigiu.  Voc captou toda a ateno dele, do contrrio, ele no ficaria a sentadinho quieto at adormecer.
	Gosto muito de poesia infantil. Em criana, eu adorava este livro. Eu me imaginava sendo todos os heris. At a adolescncia, eu ainda sonhava tornar-me o rei dos rodeios.
	Voc queria ser cowboy de rodeio?  Esse era um assunto sobre o qual ela no entendia nada.
	Por pouco tempo. At eu me dar conta de que teria que viajar muito e ficar longe do rancho por longos perodos. Ento, preferi ficar aqui, trabalhando. Isso, porm, no me impediu de levar muitas quedas espetaculares.
	Ah, de quedas eu entendo e muito!
	 mesmo?
	Eu ca muito patinando. Se voc pensa que  duro cair no cho de terra, imagine o que  cair em uma pista de gelo slido, e depois, levantar-se rapidamente e ainda fazer um spin com um sorriso nos lbios.
	Acho que existe algumas semelhanas.
Jill no queria aprofundar-se no assunto. Ela no estava l para discutir semelhanas entre ambos, de nenhum tipo.
	Obrigada por ter lido para ele  ela agradeceu. No foi nada.  A voz de Gray soou enrouquecida. 
Ela juraria que ele gostara muito de ler para Sam. De repente, porm, parecia estar rejeitando aqueles momentos.
	Voc... h... bem, voc precisava continuar sua conversa ao telefone  ele se justificou.
As palavras que ele a ouvira dizendo a Alan, pairavam no ar entre ambos.
Jill decidiu esclarecer tudo.
	No estou pretendendo um acordo financeiro com voc, Gray. No precisa preocupar-se com isso.
	Garanto que no seria uma boa ideia tentar um acordo comigo, Jill.  Ele forou um sorriso.  Eu no tenho condies. Provavelmente, voc j percebeu.
Essa  a nica razo pela qual voc no pretende pedir um acordo. Ele no disse isso com palavras, mas Jill entendeu pelo tom de sua voz.
De novo, a realidade.
	Quer levar Sam para a cama?
	 melhor  ela concordou.
O velho sof era baixo e macio. Gray e Sam estavam praticamente enterrados nele.
	No vou conseguir levantar-me sem acord-lo  observou Gray.
	De qualquer modo, ele acordar se outra pessoa, que no eu, o levar para cima.
	 melhor peg-lo, ento. Vou colaborar ao mximo.
Ele endireitou o corpo e Jill se curvou. A cabea de Sam estava no brao esquerdo de Gray. Jill introduziu o brao esquerdo entre os dois, sentindo o calor do peito de Gray e a maciez de sua camisa.
Ela passou o outro brao pela costas de Sam, e percebeu que no conseguiria peg-lo assim. Seu brao esquerdo deveria estar mais embaixo. Muito mais embaixo. Sobre as pernas de Sam.
Foi o que ela fez. E ento, seu rosto ficou muito perto do rosto de Gray... Na verdade, sua testa pressionava o pescoo dele... ela viu os msculos dos maxilares contrarem-se quando seu brao roou no corpo dele.
Ela ouviu a respirao ofegante. Sentiu o cheiro do sabonete, da cerveja, da camisa limpa. Os dedos dela tocaram no quadril dele.
	 complicado. Desculpe. S vou... Opa! Consegui!  Jill pegou o filho nos braos e enterrou o rosto nos cabelos dele.  Sam tinha catapora at no couro cabeludo.
Gray sentiu um n na garganta. Sua voz soou ainda mais enrouquecida.
	Vou fazer caf.  Gray tentava disfarar o embarao.
	 Quando voc descer, coloco um filme no vdeo. Voc quer?
	Por mim, tudo bem.  As faces dela estavam queimando.
	Ele vai continuar dormindo?
	Por muito tempo.
	Ele no est pesado?
	No. Estou acostumada.
	Sei...
	Volto em um minuto  disse Jill, subindo as escadas.

CAPITULO V

Trs dias depois, Sam entrava na cozinha para um caf da manh atrasado.
	Hei, cowboy, voc j est melhor!  Louise McCall exclamou.  Que bom!
	Oi, tia. Tem panqueca, como ontem?
	Sinto muito, mas hoje no. Tem ovos, aveia, po de milho...
	Que tal aveia com leite e po, querido?  Jill interrompeu-a.
A loua do caf da manh j estava lavada, e Louise estava ocupada fazendo sanduches, embrulhando pedaos de bolo em papel alumnio e preparando caf suficiente para encher duas garrafas trmicas. Sam observava os preparativos com interesse e interpretou-os a seu modo.
	Oba! Vamos fazer piquenique?
	No, meu bem...  Jill comeou, mas Louise no a deixou terminar a frase.
	Mais ou menos. Temos uma grande extenso de cerca
para inspecionar e consertar, e no queremos voltar para almoar em casa.
	Ns tambm vamos?
O rosto coberto de catapora iluminou-se. O corpo tambm estava cheio, mas graas aos banhos com aveia, Sam no tinha coceiras. Felizmente, no estourara mais feridas, e as antigas, j estavam cicatrizando. A febre desaparecera e Sam comeava a recuperar suas energias. Isso dava a Jill a chance de respirar e perceber o incmodo que ela e o filho representavam para a famlia McCall.
Ela fazia o possvel para ser til. Lavava a loua, colocava a roupa na mquina de lavar, passava aspirador, limpava o banheiro. Mas no era tola. Isso no era nada, perto do transtorno que ela e Sam tinham causado.
Louise levava as refeies para Sam no quarto, todos os dias. Na noite anterior, Gray tornara a ler histrias para o menino. E como da primeira vez, sua voz soou macia, sonora, envolvente. Sam ouvia fascinado. Obviamente, ele gostava de Gray, mas Jill duvidava da reciprocidade da afeio.
	Isso  com sua me - Louise respondeu.
	No queremos atrapalhar ficando no caminho de vocs  disse Jill.
Louise parou o que estava fazendo e colocou as mos na cintura.
	E como poderiam? Este rancho  enorme, de perder de vista, e no uma caixa de fsforos. A dra. Blankenship disse que vocs ficaro mais uma semana por aqui. Vocs no vo querer ficar trancafiados em casa esse tempo todo, no  mesmo? Claro que podero ir conosco. Eu ia mesmo sugerir, e j preparei sanduches suficientes para todos ns.
Jill permaneceu em silncio por alguns minutos. O convite parecia sincero. E aparentemente, a vida no rancho no sofrera alteraes, desde a chegada deles. Isso, de certa forma, aliviava seu sentimento de dvida e intruso, embora, muitas vezes, vira Gray ou Louise deixando de lado suas tarefas por causa dela.
r- No vou trabalhar no escritrio, esta noite  dizia Gray, depois do jantar, em um tom rouco e casual.  Vamos" assistir a um filme.
Ele a convidava para escolher um filme de uma pilha ao lado da televiso. Depois, ele lhe servia caf e biscoitos, e esparramava-se no sof, como se no tivesse nada melhor para passar as horas. Na terceira noite, Jill sentiu-se uma perfeita idiota, no meio de um filme de suspense, porque ocorreu-lhe que ele s estava agindo assim, para distra-la. Na realidade, provavelmente ele estaria ansioso para correr at o computador e conferir a cotao de bois, bezerros e coisas do gnero.
Tarde demais para protestar. Tarde demais para admitir o quanto ela apreciava aquelas noites calmas. A proximidade de Gray. Seu riso espontneo. Sua ateno ao perguntar se ela queria mais caf. O calor que emanava do corpo dele, apenas a alguns centmetros do dela no sof forrado com a colcha de croch, enquanto Louise bordava na poltrona ao lado.
Jill praticamente ouvia os msculos de Gray relaxando depois de um dia de trabalho rduo. Por duas vezes, ele cochilou, pendendo a cabea para o ombro dela e encostando a perna na dela. E naquelas duas vezes, ela no se afastou rapidamente, como deveria.
Por tudo isso, talvez, no deveria correr o risco de intrometer-se nos planos de Gray, aceitando o convite de Louise. E deveria arriscar alguma coisa mais?
Estava passando tempo demais em companhia de Gray. Eles eram os primeiros a levantar-se, pela manh e os ltimos a recolherem-se,  noite. Isso lhes dava tempo de conversarem bastante, a ss. E nessas oportunidades, poderiam ter cado um nos braos do outro, entregando-se a beijos longos e devastadores,
Jill j perdera a conta das vezes em que isso quase acontecera. No caf da manh do primeiro dia, antes de saberem da catapora de Sam, quando ambos lembravam da madrugada em Las Vegas. Depois, na noite daquele mesmo dia, quando eles colidiram na porta do banheiro.
Seria mais seguro e prudente recusar o convite de Louise. Mas ao ver os olhos ansiosos de Sam, ela no teve coragem de negar.
	Tudo bem, ns vamos, desde que voc me deixe ajudar.
Logo ela se arrependeria do ingnuo oferecimento.
A picape que Gray andara consertando dias antes, estava estacionada na frente da casa. Jill e Sam ajudaram Louise com as cestas de comida.
	Voc pegou chapu, jaqueta e uma muda de roupa para Sam?  Louise perguntou.
Jill subiu correndo ao quarto, recriminando-se pela falta de preparo. Quando ela voltou, o av de Gray estava sentado na carroceria da picape, entre rolos de arame farpado, fios, postes, martelos, caixas de pregos, alicates e vrios tipos de ferramentas que ela nunca vira antes. Louise estava ao volante e Gray ao lado da porta do passageiro.
Como Sam j estava sentado ao lado de Louise, Jill fez meno de subir na carroceria.
	Sente-se aqui, Jill  Gray chamou-a, abrindo a porta do passageiro.
	Eu pensei...
	Creio que meu traseiro seja mais resistente do que o seu  ele brincou.  O caminho  acidentado.
Ela obedeceu. Sentou-se ao lado de Sam e Gray fechou a porta.
	O trinco no funciona por dentro  ele a avisou.
Ele pulou para a carroceria, e Louise ligou o motor da picape. Por uns dez minutos, seguiram por um caminho estreito, esburacado, cheio de pedras, at, chegarem em um trecho onde a trilha desaparecia.
Sam vibrava e ria a cada obstculo enquanto Louise olhava para frente, em total concentrao. Suas mos pareciam grudadas ao volante. Com habilidade e movimentos precisos, ela desviou de tocos de rvores, de pedras e regos.
Com a janela aberta, Jill sorria em um minuto, e no outro, assustada, fechava os olhos. Debruando-se na carroceria, Gray gritava:
	Tudo bem a na frente?
	Tudo!  ela respondia gritando tambm.
Apesar dos buracos, da poeira e dos sustos, ela estava adorando a novidade. O orvalho ainda brilhava em alguns pontos da vegetao amarelada. Uma brisa leve, fresca, balanava as folhas das rvores* cujos nomes Jill desconhecia. Ela nunca estivera em um lugar como aquele, nunca se envolvera em uma aventura desse tipo, que terminaria em trabalho braal. E era tudo muito excitante.
De repente, Louise brecou o carro e anunciou:
	Est bem. Daqui para frente, comea a etapa mais difcil.
Jill espantou-se.
	U, por onde andamos at agora, ento?
	Pelo trecho mais fcil  Louise respondeu com um sorriso maroto.  Daqui para frente, fica par conta de Gray.
	Ento, eu vou l para trs.
	Nada disso! Se voc e Sam tiverem um pouco de bom senso, seguiro comigo, a p. So s duzentos metros!
	E aqui mesmo que vamos descer, meu bem  disse Jill ao filho. Ela tentou abrir a porta, mas o trinco caiu. Gray socorreu-a, abrindo a porta pelo lado de fora.
	Desculpe meus palavres  ele pediu.
	Voc no disse nenhum palavro.
Jll deslizou do banco alto da picape e no movimento, seu quadril roou na perna de Gray. Foi rpido, mas o suficiente para faz-la mergulhar em sua aura masculina, em seu perfume, em sua sensualidade. Ele se enrijeceu e Jill estremeceu.
De novo. Como isso podia acontecer contra a vontade de ambos?
Jill conteve um suspiro trmulo.
	Foi um aviso, um pedido de desculpas antecipado  Gray esclareceu, recuando e virando rapidamente o rosto.  Voc vai comear a ouvir meus palavres logo, logo.
	Tudo bem.
Vov Pete tambm desceu para seguir a p. Eles esperaram Gray partir, e comearam a andar, seguindo o veculo  distncia. O trecho era realmente muito mais acidentado do que o anterior, e aps muitas manobras e obstculos, Gray estacionou sob uma rvore.
	A rea  muito grande  o av de Gray comentou com seu jeito lacnico, enquanto observava o terreno ao redor.
Jill entendeu que ele se referia  cerca danificada, cada ao longo do leito do riacho.
	Olhe, mais trs de nossas vacas do lado do Thurrell Creek 	disse Louise.  No, no, so cinco. Quer ajudar-me a traz-las de volta, Sam?
	Posso?  o menino perguntou, evidentemente pensando tratar-se de uma brincadeira.
	Claro que pode.  divertido.  Para Jill, ela acrescentou: 
	Loucura, mas divertido.  Depois, para Sam novamente:
	Vamos, cowboy.
Louise enterrou um velho chapu de cowboy na cabea de Sam e os dois se afastaram. Jill observou-os e, de repente, sentiu uma ponta de inexplicvel tristeza.
L ia Sam! Quatro anos, pequeno para sua idade. Ele quase corria para acompanhar os passos largos de Louise, mas mesmo assim, mantinha os ombros eretos e o chapu firmemente na cabea. Sim, ele estava decidido a cumprir sua tarefa, e demonstrava uma ansiedade que Jill nunca vira antes.
De repente, ela se questionou sobre a felicidade do filho. Nunca pensara nisso. Mas tambm, como chegar para uma criana e perguntar algo como: Voc  feliz, meu filho?
O que havia de diferente naquele lugar? O que tocara o esprito de Sam com tanta fora, apesar da doena?
Seria a magnitude e a beleza da paisagem? Ou a instabilidade do tempo? Naquele momento, fazia muito calor, o sol brilhava no cu azul pipocado de nuvens brancas, depois da chuva de granizo e da neve que caram no incio da semana.
Ou talvez, os animais e o trabalho do rancho? No dia anterior, no final da tarde, Sam j se sentira suficientemente bem para acompanhar Gray at o estbulo. Entusiasmado com tanta novidade, ele voltara com mais informaes sobre vacas, bois e bezerros do que Jill poderia registrar em sua mente por mais de cinco minutos.
Sem resposta para essas perguntas, ela as deixou de lado e voltou-se para Gray. Ele ajudava o av a descarregar o equipamento.
	Posso ajudar?
	Que tal um caf enquanto dou uma olhada na cerca?
Ela concordou com um gesto de cabea, depois observou-o caminhando pela margem do rio, avaliando o tamanho do estrago. O sol batia em seu chapu e nas costas largas. As mangas da camisa estavam enroladas at os cotovelos, e seus passos eram... eram...	
Os passos de Sam. Sim, eram os passos de Sam. Os passos que Sam imitara, caminhando ao lado de Louise.
De repente, Jill descobriu a resposta. Essa era diferena. Era isso o que o rancho de Montana possua, e que faltava completamente na velha e imponente manso vitoriana, na Pensilvnia. Um homem. A figura forte, marcante, honrada de um homem com quem Sam pudesse identificar-se.
Sam no conhecera o pai. Curtis Harrington III desaparecera da vida de Jill no momento em que soubera da gravidez. Nunca mais ela tivera notcias dele. E depois de tanto tempo, nem se importava mais com isso. Ela se importava, sim, com a ideia de Sam ter um bom pai. Por esse motivo, aceitaria casar-se com Alan.
Assim que obtivesse o divrcio de Grayson McCall.
Proporcionar a Sam um pai a quem ele pudesse respeitar. Um homem decente com responsabilidades e obrigaes, que encarasse a vida e a famlia com seriedade. No um homem que fizesse seu corao bater mais forte e a cabea girar.
No. Ela dispensava esse tipo de homem. Durante trs meses, ela vivenciara tudo isso com Curtis. E aprendera que, alm de no durar muito, essa coisa de amor fechava os olhos das pessoas para o verdadeiro carter de um homem.
Ela aceitara namorar Alan Jennings porque ele no lhe provocava reaes loucas. Alan no fazia seu corao pulsar des-controladamente. Ele no a fazia dobrar-se de tanto rir, ou seu rosto corar quando os olhares se cruzavam. Nem seus olhos brilharem quando descobriam um gosto ou uma opinio em comum.
Jill gostava de Alan. Gostava de sua segurana, de seu senso prtico em relao  vida. Ela no era mais uma adolescente romntica e nem acalentava mais os sonhos tolos da poca de Cinderela. Ela gostava da preocupao de Alan com a segurana e o futuro das filhas. Essa era a base ideal para um casamento e no a magia da qumica de um dia.
Seria possvel ter os dois? Suas irms tinham-na desafiado com essa pergunta.
Jill no sabia, e estava apostando todo seu futuro naquela deciso. Seu futuro e o de Sam. Alan gostava de Sam. Preocupava-se bastante com o garoto.
Contudo, naquele momento, ocorria-lhe que Sam nunca tratara Alan como modelo ou companheiro. De repente, esse fato parecia um problema, apesar de todos os prs que enumerava a si mesma.
	Caf chegando!  ela anunciou, entregando uma caneca para Gray, outra para o av.
	Obrigada, Jill  ele agradeceu, e, por um momento, seus olhares se prenderam.
Jill estremeceu e assustou-se. Droga, ela acabara de convencer-se de que no estava  procura de sentimentos fsicos! Ela no passara quatro dias rejeitando-os com todas suas foras?
	De nada, Gray  respondeu, afastando-se da irradiao perigosa do calor do corpo dele.
Ele tomou o caf, depois passou as trs horas seguintes ensinando-lhe tudo sobre cercas.
Era um trabalho difcil. Jill ganhou trs arranhes no brao, um cordo de poeira ao redor do pescoo e dores musculares, mas continuava a tarefa com disposio. Gray e vov Pete trocavam olhares admirados.
Voc pode parar  falou Gray, mais de uma vez.
Jill limitava-se a lanar-lhe olhares eloquentes. Gray entendia a mensagem.
	Voc no desiste, no  mesmo?
	Adoro aprender coisas novas. Alm do mais, estou me divertindo muito  respondia ela, dando de ombros.
	 mesmo?
Jill quase nem tinha tempo para pensar em Sam e Louise que, depois de recuperarem as cinco vacas, saram  procura de mais quatro que tinham escapado para fora dos limites do rancho McCall. Sam tambm estava se divertindo muito. De quando em quando, Jill ouvia-o chamando pelos animais com a naturalidade de quem nascera e sempre vivera em um rancho.
	Venham, garotas. Voltem aqui. Eia! Eia! Aqui, garotas!
Gray tambm ouviu-o, e interrompendo momentaneamente seu trabalho, comentou:
	Ele est se saindo muito bem, Jill.  Sua atitude em relao a Sam, parecia menos formal e relutante do que nos primeiros dias.
	Espero que ele no esteja atrapalhando.
	No. Sam est apenas seguindo as instrues de minha me. Grita quando  preciso gritar, e fica quieto no momento certo, tambm  Gray observou.  No  fcil conduzir um animal para onde se quer lev-lo, principalmente se no estiver  cavalo. Esta cerca pertencia a Stannard, e estava cada desde que compramos o rancho, mas ns no sabamos disso. Sem nenhum obstculo para impedi-las, as vacas invadem os pastos do Thurrell Creek.
	E da? O rancho no  de vocs?
	E. Acontece que ele est em pssimas condies. Tentei alug-lo na primavera, mas ningum se interessou em arrend-lo a curto prazo. O rancho exige muito trabalho. Partes dele foram exploradas em demasia, enquanto outras foram negligenciadas. Em certos pontos, a cerca est to danificada que os prprios animais conseguem derrub-la. A erva daninha que invadiu os pastos  prejudicial aos animais.  Ele foi at um arbusto prximo e arrancou um fio de nailon amarelo enroscado em um galho.  Est vendo isto?
	Sim.
	No  nosso. Veio do Thurrell Creek trazido pelo vento. Ns recolhemos todos os pedaos de fio de nossos pastos, porque causam danos terrveis ao gado, se ingeridos.
	Que coisa!  Jill exclamou.
	Certamente, h muito disso no Thurrell Creek, e enquanto eu no verificar pessoalmente o estado do rancho, no permitirei que os animais atravessem a cerca. Acho que meu pai faria a mesma coisa.
Gray e Jill voltaram s respectivas tarefas.
	Eu sinto um aperto no corao quando penso naquele rancho  continuou Gray. Parecia que ele precisava expressar seus sentimentos em voz alta, aliviando o peso de t-los guardado por tanto tempo.  Pertencia  famlia Thurrell. Voc conheceu Ron.
	O dono do posto de gasolina.
	Ele mesmo. E tem a irm dele, C.J. e o marido dela, donos do Sagesbrush Motel. O pai deles perdeu o rancho para Wylie Stannard em uma aposta. Ron e C.J. nunca se conformaram com isso. Queriam compr-lo, mas meu pai cobriu a oferta deles. Eles ficaram furiosos, claro. J me fizeram algumas propostas, mas eu me recuso a vend-lo.  Ele ergueu o queixo em um gesto de determinao.  Meu pai queria o rancho e, apesar da situao em que ficamos, acho que ele fez bem em compr-lo. Sei que no ser fcil, mas vou fazer esse rancho funcionar, como meu pai deve ter planejado. Assim que o recuperarmos, teremos um belo pedao de terra, junto com Flaming Hills.
Gray correu os olhos negros pelas terras da famlia McCall e pelas recm-adquiridas, depois, por um momento, apoiou-se em uma estaca. Com a respirao presa no peito, Jill observou-o.
Gray McCall amava demais aquele rancho. No era o tipo de amor que se traduz com palavras, mas sim, com atitudes. Trabalho rduo, entendimento e satisfao. Havia medo, tambm. Medo de fracassar e decepcionar o pai. Frank McCall teria avaliado mal a compra do novo rancho? Ou seria Gray quem estava cometendo erros? Era difcil julgar.
	O velho Thurrell nunca foi um bom rancheiro  continuou Gray.  E a julgar pelo modo como Ron e C.J. administram seus negcios, no h motivo para acreditar que eles sejam melhores que o pai.
	Realmente, eu no fiquei bem impressionada com a garagem de Ron. Nem com o carro.
	Terra e gado exigem dedicao em tempo integral. No d para tapear, como muitas vezes, tapeiam-se as pessoas. Ron e C.J. no saberiam tocar o rancho e, naquele caso, o lugar ficaria pior do que j est. Isso seria uma pena porque Thurrell Creek poder transformar-se em um prspero pedao de terra, desde que corretamente trabalhado.  O olhar de Gray parecia distante, como se ele estivesse pensando em voz alta.  Talvez por isso, meu pai tenha comprado esse rancho, mesmo sabendo das dificuldades financeiras que enfrentara mos. Ele no queria v-lo em mos erradas.
Jill queria dizer alguma coisa para Gray saber que ela o entendera. Nada lhe ocorreu, e antes que tivesse tempo para pensar, Gray perguntou:
	Voc quer aprender a usar a serra tico-tico?
No, obrigada. Vou ficar por aqui s mais uma semana, se Sam continuar nesse ritmo de recuperao. Portanto, no sei at que ponto seria til aprender a manusear uma serra.
Essa seria a resposta mais sensata. Definitivamente.
Em vez disso, o que saiu de sua boca foi uma exclamao alegre e determinada: 
	Claro!
Loucura. Absurdo. Impulso. Como sempre.
Gray ligou a serra e ensinou-lhe como us-la. Sem dvida, no era um equipamento apaixonante, mas o resultado foi satisfatrio.
Seguindo as instrues de Gray, minutos depois, Jill j operava a serra com presteza, executando as tarefas com preciso e boa vontade. S parou quando Sam e Louise apareceram para o almoo.
	As vacas ficaram com medo de mim, mame  Sam anunciou orgulhosamente.
	Talvez, por causa das manchas em seu rosto  brincou Jill.
	Ele fez um belo trabalho  disse Louise.  E parece que voc tambm, Jill.
	Oh... obrigada.
Jill no sabia o que dizer. No queria demonstrar o quanto ficara satisfeita com a observao de Louise. Afinal, tudo aquilo representava um desafio para uma garota da cidade, e ouvir tal elogio, principalmente, vindo da me de Gray, era muito gratificante.
Evitando olhar para Gray, ela serviu sanduches e suco de laranja para Sam. Depois, encheu quatro xcaras com caf ainda fumegante. Louise acionou a buzina da picape, chamando vov Pete que trabalhava no outro extremo da cerca.
Como de costume, ele falou pouco, limitando-se a comer devagar, observando a correnteza do rio.
Assim que terminou de comer, Sam pediu para brincar na beira da gua.
Louise e Jill entreolharam-se, buscando o consentimento mtuo.
	Tudo bem  autorizou Jill.  Mas nem pense em nadar, se no quiser ficar doente de novo.
	No acredito!  Gray apontou para as terras do Thurrell Creek.  Ainda temos vacas fujonas.  Ele se voltou para Sam.  Quero ver se sua me  to boa quanto voc para assustar aquelas vacas. Vamos, Jill?
	V, mame.  muito divertido.
Jill no hesitou. Ainda comendo um pedao de bolo de cenoura, seguiu Gray em direo a Thurrell Creek.
Gray andava rpido e gil na terra spera. Jill quase corria para acompanhar seus passos, at ele notar e parar para esper-la. Era impossvel ler dentro dos olhos negros que a observavam.
Ela no queria pensar em como Gray a afetava. Na verdade, talvez, nem fosse exatamente Gray, mas sim, o lugar em si que mexia com seus nervos, fazendo-a sentir-se to viva, naquele momento. Sentia-se tonta, inebriada pelo frescor do ar e pelo sol radiante, pelo cheiro de gua, terra e mato, pelo canto dos pssaros e do vento.
No podia ser apenas Gray. Ou ele era parte to integrante daquela terra que era impossvel pensar em ambos separadamente?
	Por que Wylie abandonou tanto esse rancho?  Ela precisava da distrao das palavras.
No que a voz rouca, carinhosa de Gray fosse mais fcil de enfrentar d que a viso de seu corpo magnfico. Jill e Gray caminhavam lado a lado. Ele diminura o ritmo do passos para acompanh-la, mas no havia o menor sinal de impacincia ou contrariedade por isso.
	Eleja no o administrava mais, nos ltimos anos. Estava ficando velho e seus dois filhos moravam no leste. Nenhum deles tinha vocao para rancheiro. Ento, Wylie foi morar com o filho mais velho e alugou o rancho. Se ele o tivesse vendido para meu o pai naquela ocasio, tudo seria diferente. Ns no teramos investido nosso dinheiro na casa nova, e teramos o capital que precisvamos para aplicar no Thurrell Creek. E teramos poupado nosso tempo e nosso trabalho, j que, certamente, o rancho no estaria naquele estado lastimvel. E tambm...  Gray tirou o chapu, passou o dorso da mo na testa suada, e tornou a coloc-lo.  No adianta pensar nisso agora...
	Voc vendeu gado, semanas atrs, no? Deve ter recebido
um bom dinheiro.
	Grande parte desse dinheiro est guardada para pagar o emprstimo bancrio. O restante foi usado para as despesas do dia-a-dia  ele explicou pacientemente, como se fosse importante que ela entendesse a situao.
	Sei.
	Se nascerem muitos bezerros na prxima estao, e se no perdermos muitas vacas durante o inverno, a a coisa melhora um pouco. Teremos dinheiro suficiente para comearmos um novo rebanho e para consertarmos os equipamentos. Mas no ser nada fcil. No temos empregados para cuidar do animais doentes, ou para atender vacas que do  luz no meio de uma nevasca. Vamos perder alguns animais, sem dvida.
	Quando voc dispensou os empregados?
	O ltimo foi na poca em que recebi sua carta.  Os lbios de Gray mal se moveram para pronunciar as palavras.
 Dacey Lenart trabalhou conosco durante quinze anos.
	Desculpe, Gray. Estou fazendo tantas perguntas, obrigando-o a falar sobre esse assunto.
	Tudo bem.  a realidade. Falar disso no vai mudar nada. Eu... h... aprecio seu interesse.
Jill no respondeu. Ela sabia como era doloroso e difcil para ele falar sobre os acontecimentos que tinham abalado a famlia McCall.
Nos ltimos dias, ela tentava no pensar que eram marido e mulher. Tentava concentrar-se no fato de que iria embora dentro de uma semana, sem olhar para trs. Porm, ao pensar em um homem como Gray lutando tanto, trabalhando tanto, ao lado da me batalhadora e do av idoso, as coisas se complicavam um pouco.
	Os animais esto ali.  Gray apontou na direo de um grupo de pinheiros.  No ser fcil conduzi-los. Eles se espalharo assim que perceberem que estamos atrs deles.
Gray no se enganou.
As trs vacas cansaram Jill e Gray antes de, finalmente, serem acuadas. Suada e vermelha, Jill ofegava. Tinha espinhos de pinheiros na camiseta, na cala, nos cabelos, e de seus lbios saam mais imprecaes do que pronunciara em toda sua vida.
	Odeio dizer isso, Gray, mas acho que sua me e meu filho de quatro anos foram bem melhores do que ns.
Rindo, Jill deitou-se na grama e olhou para o cu azul, atravs dos galhos dos pinheiros.
	Prefiro afirmar que a diferena est nas vacas  Gray respondeu solenemente, deitando-se tambm.
Por alguns momentos, eles permaneceram lado a lado, embalados pela calma e pelo silncio do campo. A manga da camisa de Gray roava no brao de Jill.
	Estas so muitos jovens ainda  continuou Gray.  So mais brincalhonas e mais difceis de serem conduzidas.
	Brincalhonas... Serem conduzidas... Refresque minha memria, por favor. O que significam essas palavras? Acho que no conseguirei mais sair daqui.
	Vai ter que sair, Jill.
Gray levantou-se e estendeu a mo para ajud-la. Ela se ergueu desajeitadamente e bateu no corpo dele. Um segundo depois, Jill ofegava novamente. E no por causa das vacas.
Gray no soltou a mo dela. Deveria ter soltado, mas ele no a soltou. Alm de no solt-la, ainda entrelaou os dedos nos dela. Jill sentiu o dorso de mo dele em sua coxa, e o brao no seu. Ele estava imvel.
Por um indeterminado espao de tempo, ela olhou para o peito dele, fascinada pelo sobe-e-desce de sua respirao, e pelo pedao de pele revelada pelos primeiros botes abertos da camisa. Devagar, ela ergueu a cabea e, pelo olhar imediatamente, percebeu que ele ia beij-la. As pupilas dilatadas, os olhos arregalados, quase assustados, sob a sombra da aba do chapu. Gray parecia chocado com os prprios sentimentos.
Isso no era surpresa. Jill tambm se chocara. E continuava chocada, como em todas as vezes, no confmamento da casa, quando ambos conseguiam resistir. Conseguiam negar a magia. Agora, com a imensido de terra ao redor deles, com todo o cu de Montana sobre suas cabeas, no conseguiriam mais negar a magia.
Os lbios de Jill tremeram, esperando pelo toque da boca de Gray. E quando aconteceu, ela sentiu uma agulhada de desejo percorrendo sua espinha, suas veias. Ele roou o canto da boca de Jill com os lbios fechados. O toque suave, leve, foi mais enlouquecedor do que um beijo voraz.
Ela gemeu baixinho, fechou os olhos e ergueu mais o rosto. Gray entreabriu os lbios, da maneira como ele abriria para sorver um gole de uma bebida gelada, em um dia quente de vero. Para provar e sentir. Depois, com um suspiro, ele pressionou, mordiscou, apossou-se com os lbios, com os dentes, com a lngua.
O beijo, ento, tornou-se mais profundo, mais vido, mais exigente. Jill sentiu a cabea girar e inclinou-a para trs. Sentiu os clios dele na face e os msculos do brao forte enrijecerem-se quando ele apertou-lhe a mo com mais fora.
	Seu cheiro  to bom  ele murmurou.
Jill ainda tentou brincar, como o marinheiro agarrado s pedras no meio de uma tormenta.
	Imagino que sim, depois de correr atrs das vacas fujonas...  As palavras foram engolidas pelos lbios dele.
	No.  o cheiro dos pinheiros...
	Voc tambm, Grayson McCall  ela resmungou, desistindo de lutar.

CAPTULO VI

Grayson James McCall era um homem que beijava de olhos fechados.
Sempre beijara assim. Desde o beijo tmido no rosto de Glria, colega do jardim-de-infncia, at os beijos vorazes trocados com Melinda Tulley no banco traseiro do carro do pai dele, aos dezenove anos de idade. At ento, ele ainda tentara acrescentar viso  mistura mgica dos sentidos, gosto, toque, som e cheiro, em vo. Continuou fechando os olhos.
Por qu? Porque beijar era algo intenso. Importante. Muito mais importante do que algum poderia imaginar, a julgar pelo modo desajeitado com que muitas pessoas dedicam-se  atividade. Ele amara Glria como somente uma criana de cinco anos poderia amar. Amara Melinda com o idealismo do quase adulto recm-sado da adolescncia, antes que ela fosse para Chicago estudar, e de onde nunca mais voltara.
Depois disso, seus relacionamentos com as mulheres, apenas dois srios, ao longo dos anos, no tinham dado certo. Ultimamente, ele no estava beijando muito. Essas duas mulheres, ambas mais ou menos da idade dele, tinham filhos de relacionamentos anteriores. E nas duas vezes, a causa do rompimento foram os filhos, no os beijos.
Com vinte e trs anos, conheceu Karine, uma cabeleireira de Bozeman. Namoraram durante cinco meses, antes de Gray descobrir que ela era me de um menino. Quando ele descobriu, Karine confessou que s no lhe contara a verdade por causa das coisas que ele dissera. Temia que ele no aceitasse o filho dela.
 Por causa das coisas que eu disse?  Gray repetira, perplexo.
Sim, ele contara sobre Mitch, sua me e seu pai. A revolta do pai, o complexo de culpa da me. Talvez, Karine estivesse certa. Ele relutava muito em relao a Jamie. Depois disso, nos trs meses seguintes, tentou aproximar-se do garoto. Mas por mais que se esforasse, no conseguia agir com espontaneidade.
Karine observava todos os seus movimentos e ele no a culpava por isso. No deu certo e o namoro terminou.
Anos depois, conheceu Judith no banco. Fotgrafa de Seattle, um pouco mais velha do que ele, Judith estava em Blue Rock para preparar um lbum sobre a vida silvestre da cidade.
Judith no mentiu. Desde o incio, Gray soube de Mara, a filha de doze anos, do primeiro casamento. Mara estava em frias com o pai, e Gray estava to determinado a fazer dar certo, que comeou a importar-se com a garota apenas de ouvir Judith falar a respeito dela.
Eles passaram muitos e bons momentos juntos, explorando lugares interessantes para Judith fotografar. Um ms depois, Gray quase a pediu em casamento, mas decidiu esperar pela chegada de Mara, que ficaria com Judith at o final do trabalho. Parecia correto. Uma atitude decente. Ele no queria terminar o relacionamento por causa de uma garota de doze anos, depois de oficializado o compomisso.
Teria sido diferente se ele no tivesse tomado a honrosa deciso de esperar?
Mara odiou Montana e Blue Rock desde o momento em que desembarcou. Sentia falta da cidade, dos amigos. Judith comeou a acelerar o ritmo do seu trabalho. Comeou a falar em antecipar sua volta a Seattle.
	E ns?  perguntara Gray.
Os olhos de Judith desviaram-se rapidamente do olhar splice de Gray.
	No... No daria certo  dissera ela suavemente, acrescentando sem muita convico:  Mesmo sem a questo de onde Mara quer morar.
	Mas nunca chegamos a conversar sobre o problema. Talvez, haja outras opes. Voc no me deu tempo para tentar dobr-la. D-me algumas semanas e...
	Dobr-la? No  como domar um cavalo, Gray! Belo consolo!
Talvez, ele devesse ter insistido. Mas no insistiu. Em vez de insistir, recuou ante a comparao de Judith, perguntando-se se ela no estaria certa. Ele estava enfocando o problema da maneira errada. Ora, se o pai dele no conseguira conquistar Mitch, mesmo depois de tantos anos de convivncia sob o mesmo teto, o que ele poderia fazer em poucos meses?
Depois dessas experincias, Gray jurou nunca mais envolver-se com mulheres com filhos. No s por causa de Karine ou de Judith.
Naquela poca, Mitch aprontara mais uma das suas, magoando a pobre Louise, usando-a, enganando-a, abusando de seu amor de me. E de novo, Frank esbravejara com o enteado, ordenando-lhe que sasse daquela casa e de suas vidas para sempre, se ele tivesse um mnimo de considerao pela me.
Inexplicavelmente, dessa vez, Mitch seguiu  risca as palavras do padrasto e no comparecera nem mesmo ao seu enterro, apesar das splicas de Louise.
Agora, pelo menos, Grayson James McCall estava beijando algum. Uma mulher a quem ele conhecera como Cinderela, dona de um sorriso que faria qualquer homem sentir-se um verdadeiro prncipe. Uma mulher to irremediavelmente errada para ele quanto Karine e Judith. Um mulher que, se ele cometesse o erro de levar a srio, o foraria a desempenhar aquele papel to desconfortvel e constrangedor. O papel em que seu prprio pai, to honrado e amoroso, fracassara. Uma mulher com um filho de quatro anos.
Olhos abertos ou fechados, ele sabia que no deveria estar beijando Jill. O problema era que ele no conseguia parar.
Ele sentia o calor irradiando do corpo dela. Movendo-se um pouco mais, sentiu os seios suaves, generosos e deliciosamente reais, contra seu peito. Fazia dias que ele desejava toc-los, explor-los, sentir o gosto deles. Imaginava como seria t-los em suas mos. Como seria sentir os mamilos rgidos e macios em sua boca. Como Jill se contorceria de desejo, murmurando seu nome.
Gray sentiu-a balanar um pouco. Ela estava na ponta dos ps para alcanar seus lbios. Talvez, ele devesse ajud-la um pouco. Soltou a mo dela e enlaou-a pela cintura, sem parar para pensar se fazia isso por gentileza ou por pura e egosta necessidade.
Droga, ele desejava aquela mulher! O desejo explodiu dentro dele, ignorando os gritos de alerta da razo, ignorando os apelos de seu corao ferido para que ele se fechasse em uma armadura de rejeio.
Agora, Gray sentia a curva dos quadris como sentia o volume dos seios. Sentia tambm o roar das pernas dela, o formato delicado das costas, a suavidade dos lbios e a maciez dos cabelos pretos.
A imaginao de Gray comeou a mexer com ele. O corpo de Jill parecia deslumbrante sob a camiseta, mas certamente, seria melhor sem nada para encobri-lo. A camiseta era curta, deixando  mostra uma convidativa brecha entre a bainha e o cs do jeans. Ele no hesitou em introduzir os dedos, tocando a pele macia da cintura e, devagar, subir at tocar os seios dela.
Renda.
O suti era de renda. Isso explicava a textura que ele notava todas as vezes em que seus olhos deslizavam por aquela rea do corpo de Jill. E seus olhos tinham sido atrados para l com muita frequncia, naquela manh, ele admitia. Suas mos se fecharam ao redor dos seios macios, e com a ponta dos dedos, brincou com os bicos enrijecidos. Ela estremeceu e as mos dele deslizaram novamente para os quadris arredondados.
Os seios de Jill eram esplndidos. Ele poderia passar horas explorando-os. Porm, com muito mais urgncia, queria abra-la, segur-la, apert-la. Queria abra-la forte e mant-la colada a seu corpo. Queria invadir-lhe a boca implacavelmente, de modo que nenhum dos dois pudesse falar ou pensar.
	Muu...uu...
Bem, esse era outro problema de beijar com os olhos fechados. Todos os outros sentidos ficavam muito mais apurados, inclusive a audio.
	Muu...uu...
Eram as vacas mugindo no muito distante deles, e era impossvel ignor-las. Deveria agradecer pela vigilncia dos animais, por traz-lo de volta  terra.
Deveria agradecer, e agradecia.
	Jill  ele murmurou, a garganta apertada e seca.  Temos que levar os animais.
	Eu sei. Desculpe-me por t-lo atrasado.
Gray abriu os olhos. Olhos baixos, Jill respirava forte, o peito subindo e descendo, fazendo coisas interessantes na curva dos seios, provocando coisas mais interessantes na masculinidade dele. Os clios longos escondiam o verde dos olhos dela, que mais pareciam pedras de jade sob gua corrente.
	A culpa foi sua?  ele perguntou com voz enrouquecida.
	No, acho que no.
Ela ergueu os olhos e os olhares se encontraram.
Jill cruzou os braos. Comeava a sentir frio na sombra, depois que pararam de brincar de esconde-esconde com as vacas brincalhonas. Por isso ela estava to corada?
No. No era.
Ambos sabiam disso. No estavam mais se tocando, mas isso no significava que o desejo tinha esfriado. No tinha. Estava mais forte do que nunca. Mas Gray lutava contra ele com toda sua determinao.
	Vamos levar os animais  ele resmungou quase com rispidez.  J perdemos tempo demais com eles.
Jill ouviu as palavras com certa apreenso. Dois segundos tinham sido tempo demais para um beijo. Se o beijo tivesse se prolongado por dez, quinze minutos...
Balanou a cabea. Nenhum deles precisava disso. Ela estava l por uma nica razo: obter o divrcio. A catapora de Sam era o motivo de eles ainda estarem em Montana. Ordens mdicas. A qumica era irrelevante, inconveniente e perigosa. E se deixara Gray furioso, como claramente o deixara, no deveria ter o efeito de uma bofetada no rosto. Ento, por que suas faces estavam queimando?
	Parece que as vacas esto mais tranquilas  observou Jill, assim que se aproximaram do cinturo de rvores onde os animais estavam reunidos.
	Como crianas  Gray respondeu ainda com expresso zangada.  Cansadas e famintas. Com um pouco de sorte, conseguiremos lev-las por esta trilha.  Ele apontou um pedao de terra iluminado pelo sol.  A grama est boa em todo o caminho e dever atra-las de volta ao nosso pasto.
	Voc est tentando me dizer que no ser fcil?  Jill tentou brincar.
Com os lbios ainda inchados pelo beijo de Gray, ela se sentia desorientada e desconfortvel, suas entranhas queimando. Caminharam lado a lado com os animas que, felizmente, decidiram cooperar.
O silncio tornou-se pesado, e Jill precisava de conversa para distra-la do ritmo dos passos dele e da sensao causada pelo corpo to prximo do seu. Lamentavelmente, ela no conseguia pensar nada seguro para dizer.
Foi Gray quem quebrou o silncio.
	Isso no vai acontecer de novo.
	No...
	Sinto muito.  O tom de voz traa a frustrao dele.  A culpa foi mais minha do que sua. No pense que estou sugerindo alguma outra coisa. Mas... o rumo que estava tomando...  impossvel.
	Eu sei  ela concordou.
	Voc planeja construir uma vida com outra pessoa e eu no estou interessado em mulheres com...
Gray se calou, mas o final da frase era to bvio que Jill completou por ele:
	Com filho.  o que voc ia dizer, no? Independente do que voc poderia vir a sentir por mim, voc no aceitaria Sam.
	No me interprete mal. Ele  uma criana adorvel...
	No preciso nem me esforar para interpret-lo mal, Gray.  Os olhos verdes escureceram de raiva.  Voc fala como se eu estivesse tentando tirar proveito de um homem, por mim e por meu filho. Eu disse que no pretendo exigir nada de voc. Foi ideia de Alan. No vou pedir desculpas por isso, e tambm no estou querendo me aproveitar dele, se  isso que voc est pensando. Seremos parceiros, vamos trabalhar muito e ambos colocamos nossos filhos em primeiro lugar.
	Jill...
	Entretanto, voc deve repensar algumas coisas. Reconsiderar algumas decises. Hoje em dia, muitas mulheres j vm com "bagagem". E muitos homens tambm. Se voc for to irredutvel na sua opinio de que mulheres com bagagem no valem um segundo olhar, ento, voc  mais fraco do que eu pensei que fosse.
	Talvez seja verdade. Voc parou para pensar por que tomei essa deciso? Por que eu me conheo. E por que sei que eu no conseguiria lidar com isso.
	Como voc pode afirmar uma coisa dessas, Gray? Voc j tentou?
	Duas vezes. Meu pai tambm. Ele tentou durante anos. E se um homem como meu pai no conseguiu...
	Ento, voc tambm no conseguir. Voc est se comparando a ele nessa questo, assim como se compara na questo do rancho. Por qu?
Jill continuava furiosa. Mas o motivo comeava a mudar.
	Porque ele era um bom homem. Um grande homem. Esperto, inteligente, trabalhador, e amava minha me como se as estrelas brilhassem nos olhos dela. Ele era o homem que eu queria ser.
	E o que o faz pensar que no ? O que o faz acreditar que voc no  to bom e grande quanto ele, Gray?
	No estou conseguindo me sair bem, certo?  A voz dele tremeu de sentimento e os punhos se fecharam.  O rancho est falindo e estamos na iminncia de vend-lo. Vend-lo no. Vend-los! Entendeu, Jill? No apenas o Thurrell Creek, mas o Flaming Hills tambm. Os dois!  Ele respirou fundo.  Por isso, eu acho que no sou o homem que meu pai era.
Gray no queria mais falar sobre o assunto. Estava bvio. Ele apressou o passo, pisando pesado na terra spera. Jill acompanhou-o. Em silncio, atravessaram o ltimo lance de cerca quebrada, entrando no terreno dos McCall, com as vacas se espalhando na frente deles, atradas pelo pasto viosamente verde.
A raiva de Jill transformara-se em um sentimento diferente. Em algo mais terno, mais compreensivo. Algo mais difcil de ser compreendido. Ela no se importou de tentar. Apenas falou com o corao.
	Voc tem que aceitar minha ajuda, enquanto Sam e eu estivermos aqui, Gray. Sei que no  muito, mas deixe-me fazer o que posso. Cada pequena coisa faz a diferena, no  mesmo? Cada pedao de cerca que consertarmos, cada fardo de feno que estocarmos para o inverno.
	Agradeo sua oferta, Jill, mas...
	Mas! No quero ouvir essa palavra. No seja to cabea-dura, Gray! E no me negue a chance de fazer o que  certo.
	O que  certo?  ele argumentou.  Voc no queria ficar no rancho. Voc no queria que Sam ficasse doente.
	 certo porque estamos casados, Gray.
	De acordo com um pedao de papel.
	Tudo bem, eu sei que, para ns, isso no tem o mesmo significado que, geralmente, tem para outras pessoas, mas mesmo assim, significa alguma coisa. Permita que eu faa com que signifique um pouco mais enquanto tenho chance. Para que o nosso divrcio no apague... o que tivemos, Gray.
	O que ns tivemos, Jill?
Magia. Por algumas horas, tivemos magia. Voc sabe disso.
A mesma magia que descobrimos hoje, novamente, quando nos beijamos...
Claro, ela jamais diria isso em voz alta. De novo, a rispidez da voz dele deteve-a. Ele no precisava usar daquele tom. Talvez, fosse o jeito dele de reagir aos momentos explosivos que tinham experimentado um nos braos do outro.
O beijo colorira as coisas de um modo diferente para ele, assim como colorira diferentemente para ela. Mas parecia que a reao deles levara-os para direes opostas.
Ele queria negar tudo. Jill queria entender um pouco mais as motivaes dele, pra respeitar mais profundamente o homem que ele era, pelo menos em sua lembrana.
	Temos um vnculo  ela comeou, rezando para expressar-se corretamente.  Fomos amigos naquela noite em Las Vegas. Conversamos muito, muito mais do que temos conversado nesta semana. Sobre o rancho. Sobre nossos pais.  s no papel,  temporrio, mas sou sua esposa, Gray, e no vou embora sem fazer tudo que estiver ao meu alcance. Nem que for por sua me, que tem sido muito bondosa comigo.
Naquele momento, eles chegaram a uma espcie de clareira entre os arbustos  margem do riacho, dando de cara com Louise. Sua expresso no deixava a menor dvida de que ela ouvira todo discurso de Jill.
Inclusive, e muito particularmente, a palavra esposa.        
Como Louise no poderia ter ouvido?	
Eu estava praticamente gritando, pensou Jill.	
Pelo canto do olhos, ela visualizou vov Pete descalo, brincando com Sam no riacho. Distantes e distrados, no perce-beram a cena constrangedora.
Ao ver o rosto espantado de Louise, Gray praguejou em voz baixa. Ele sabia que a me ouvira tudo.
	No  nada importante. Est bem, mame?
	Como no  importante?
	No  o que voc est pensando.
	Voc e Jill so casados! Ela  sua mulher!
	No realmente, me.
	Ela acabou de dizer, Gray!
	Bem, sim, tecnicamente...  Jill comeou.
	A verdade  que, aparentemente, somos casados, no papel  Gray interrompeu-a. Ele soava como um advogado, mas o tom profissional logo desapareceu.  Mame, no faa essa cara. Foi em um show promocional em Las Vegas. A Maratona do Casamento de Cinderela, lembra-se? Ns assistimos algumas vezes pela televiso.
	Voc participou daquilo?
	Eu venci meia dzia de rapazes. Eu nem sabia do que se tratava. No imaginvamos que o casamento fosse de verdade. S depois descobrimos. Jill veio at aqui para pedir o divrcio. Lembra-se de que no conseguimos transferir a linha de telefone para a casa antiga, depois que alugamos a nova? Por isso, ela veio pessoalmente. Para tratar do divrcio.
	Eu sabia!  exclamou Louise.  Faz dias que estou querendo perguntar. Eu sabia que estava acontecendo alguma coisa. Que vocs dois eram mais do que...
	No est acontecendo nada, mame.
	De acordo com sua definio.
	De acordo com a definio de qualquer pessoa. Vamos nos divorciar o mais rpido possvel. Estamos totalmente de acordo.
	Sei, sei...  Havia um brilho de desconfiana nos olhos de Louise.
Gray ignorou as suspeitas da me.
	Estvamos apenas discutindo, mame. Jill insiste em trabalhar enquanto estiver aqui. Ela acha que me deve... que nos deve isso. E muito bonito da parte dela.
	No  bonito. Nem pretendo fazer bonito!  Os olhos de Jill faiscavam.  S fao o que acho certo. Costumo pagar meus dbitos, e vou pagar este aqui.
	Ela no precisa  Gray protestou.
		Estou certa, no?  Jill perguntou.
Ambos olhavam para Louise,  espera do julgamento, como duas crianas briguentas.
Louise soltou uma gargalhada.
	Vocs tm ideia da loucura que  tudo isto? E o que vocs parecem?
Gray e Jill trocaram olhares tmidos, mas que ainda revelavam raiva e entendimento.
	Sim. Duas crianas  ele admitiu.
	Isso no tem nada a ver comigo  Louise continuou com voz severa.  Jill, eu nunca coloquei um pano de prato nas mos dos meus hspedes, se eles no me pedissem, mas respeito seu senso de dever. Se voc quiser trabalhar no rancho enquanto estiver aqui, por favor, fique  vontade. Mas, ainda por favor, no pense que voc nos deve alguma coisa, mesmo sendo esposa de Gray tecnicamente ou temporariamente, seja l como vocs encaram essa situao.
	Obrigada.
Jill sentia o rosto ardendo. Por um longo momento, seguiu-se um silncio extremamente constrangedor. Quando a tenso comeava a desfazer-se no ar, Louise veio com uma nova bomba:
 Posso fazer uma pergunta, Jill? Por que voc quer o divrcio com tanta urgncia?
Jill clareou a garganta.
	Quero ficar livre para casar-me com outra pessoa.  A resposta soou direta, metdica, eficiente, prtica demais. O que o era na realidade. Ela queria que fosse assim.
Louise concordou, balanando lentamente a cabea. Jill sentiu um aperto na garganta. E dessa vez, o silncio entre eles no foi quebrado.
CAPTULO VII

Trs dias depois, novo contratempo.  Louise, a mdica acha que devemos esperar mais uma semana  Jill informou relutantemente enquanto arrumavam a cozinha, depois do caf da manh. Gray sara bem cedo e ela no o vira ainda.
No dia anterior, Sam tivera febre e queixara-se de dor de ouvido. Em pnico, Jill pedira a Gray para lev-la  cidade, no final da tarde. Um simples resfriado, nenhuma complicao da catapora, garantira a dra. Blankenship, para alvio de Jill. A mdica constatara tambm infeco nos dois ouvidos e prescreveu antibitico.
Nada preocupante, segundo ela, mas isso reforava sua opinio inicial de que Sam deveria recuperr-se muito bem, antes de empreender a longa viagem de volta.
	Gray j sabe?  Louise perguntou.
	Ainda no... No tive coragem de contar.  Jill poderia ter contado no trajeto de volta para casa, no dia anterior. Mas no contou.
Louise contemplou-a com um daqueles olhares perspicazes e alarmantes que Jill j comeara a reconhecer. Da a relutncia na hora de responder, ainda que inconsciente. Como Louise tinha aquela incrvel capacidade de agir como se a vida fosse um filme ao qual ela j assistira duas vezes?
	Eu digo, se voc quiser  ela se ofereceu.
	Obrigada. Est decidido. Ficaremos aqui at segunda-feira. Gostaria que lhe contasse. Assim, ele poder... --- Jill se calou.
	Planejar?  Louise sugeriu.
	Planejar. Sim.
Nos dias que se seguiram, o trabalho foi rduo no rancho. Gray e Jill eram os primeiros a se levantarem, pela manh. Ela acordava antes do amanhecer, e enquanto Sam dormia profundamente, ela se movia silenciosamente pelo quarto ainda escuro.
Sam recebera bem a notcia de que ficariam por mais uma semana no rancho.
	At meu resfriado passar?
	Isso mesmo.
	Ns estamos em frias?  Sam perguntara.
	Voc est, meu bem. A doutora disse que voc precisa descansar. Mas a mame est tentando ajudar Gray e a sra. McCall.
Felizmente, Jill levara roupa suficiente para a longa viagem de trem at Montana, e depois, para as frias em Chicago. Mesmo assim, Louise lhe emprestara algumas roupas mais quentes, pois os dias tornavam-se mais frios, tendo, inclusive, nevado uma vez.
E Jill trabalhava. Trabalhava, cuidava de Sam e passava muitas horas com Gray. Limparam gros de feijo, armazenaram sal para o inverno. Consertaram a porta do celeiro, trocaram o leo da pi cape... Ela perdeu a conta das diferentes tarefas que executava todos os dias.
Enquanto trabalhavam, Gray falava-lhe sobre o rancho. Ela ouviu tudo sobre gado e as doenas que o atacavam. Sobre os diferentes tipos de ervas daninhas prejudiciais aos animais. Ela soube que no era em todos os pastos do rancho que a grama crescia naturalmente. A chuva era escassa. Nos meses de vero, os McCall precisavam irrigar a terra, usando equipamentos portteis.
Jill comeou a entender o ritmo de trabalho de acordo com as estaes do ano. Ouvia na voz de Gray as coisas que ele amava e as coisas que temia. Incndios. Pragas de gafanhotos. Tempestades fora de poca. Baixa do preo do boi.
	Compensa tanto trabalho?  ela perguntou, na quinta-feira, quando voltavam para casa.
Gray encolheu os ombros.
	O rancho est no meu sangue. Muitas vezes, penso que seria melhor detestar essa vida e desistir de tudo, como meu irmo Mitchell, que foi para Las Vegas. Ele passou anos tentando convencer meu pai a vender tudo e recomear a vida em outro lugar. Mas eu amo este lugar. Mesmo nos piores dias, voc sabe que fez alguma coisa. E nos melhores dias... Ah, nos melhores dias! Quando a primavera chega e voc v o gado saudvel, o cu azul... Eu monto Highboy, o sol batendo em minhas costas, depois de um belo caf da manh... Parece que eu vou explodir de alegria!
 Entendo.  O que mais Jill poderia dizer?
J quase escurecera. Fazia muito frio e as mos de Jill ardiam por causa das bolhas. Mas era bom pensar que Louise, Sam e vov Pete j estavam em casa, e o jantar, quase na mesa.
Ela via sombras movendo-se atrs das cortinas amareladas pela luz das lmpadas. Certamente, aquele no era um dos melhores dias aos quais Gray referira-se, mas mesmo assim, fora um bom dia. Magicamente, perigosamente, enganosamente bom.
Jill respirou fundo, lutando contra as emoes que a invadiam. No queria impressionar-se com o tom lento e aveludado da voz de Gray. No queria importar-se com a ternura dos olhos dele, com a calosidade das mos nem com o bronzeado forte do pescoo.
J repetira inmeras vezes para si. mesma que jamais poderia apaixonar-se por um homem que no queria seu filho. Que o melhor futuro seria ao lado de Alan. Quando Sam no estava por perto, a tenso entre ela e Gray desaparecia e a magia voltava a envolv-los. Isso, evidentemente, era um grande problema.
Em silncio, chegaram nos degraus da varanda, no fundo da casa. Gray recuou para ela subir primeiro. Ao passar por ele, Jill sentiu a aura de seu calor e de seu magnetismo. Cerrando os dentes, ela contou os dias.
S faltavam dois para ela ir embora.
Mais dois dias. Jill telefonou para Ron Thurrell e alugou um carro de sua garagem. Iria de carro at Trilby. Gray oferecera-se para lev-los at Blue Rock, na segunda-feira cedo.
No dia anterior, a dra. Blakenship consultara Sam e o liberara oficialmente para viajar.
	Voc j pode aproveitar as frias com seu namorado em Chicago  decretara a mdica.
	Ele ainda no tem certeza se poder ir.
	Faa-o ir. Pegue o trem para Chicago, hospede-se em um hotel caro, depois telefone para ele e pea-lhe para ir e cuidar da conta.
Jill limitara-se a rir. No queria confessar  dra. Blakenship que Alan no atenderia a esse tipo de chantagem emocional. Ele levava seu oramento muito a srio e jamais iria socorr-la em uma situao difcil, na qual, eventualmente, ela mesma se envolvesse.
Alan estava certo. Socorrendo-a, ele criaria mais problemas, em vez de resolv-los.
Como o problema de ter que lidar com a forte reao que Grayson McCall causava-lhe.
Mais dois dias...
No sbado, Jill e Sam foram com os McCall e vov Pete ao churrasco oferecido por uma famlia vizinha. Havia dezenas de impresses para Jill absorver sobre o rancho vizinho, mas ela s se interessava por Gray.
Ele estava absolutamente encantador. Por alguma razo, a cala jeans chamou-lhe a ateno. Realmente, a cala era diferente. No a mesma que ele jogara na lavadora horas antes, depois do banho. Sim, era apenas uma cala jeans. Azul. Com zper. Botes. Bolsos. Nova demais para estar desbotada. Velha demais para...
Jill respirou fundo e revisou sua opinio. No, no era a cala. Era o corpo que ela ocultava. As coxas. Os quadris...
No havia um grama sequer de gordura sob a camisa branca que Gray vestia. Seu corpo era s msculos, resultado de muitas horas dirias de trabalho braal. Melhor do que muitas idas s academias da cidade. Jill sabia. Durante quase duas semanas, ela o observara trabalhando.
s cinco horas, o galpo no rancho da famlia Sheehans estava lotado de homens, mulheres e crianas, todos falando e rindo ao mesmo tempo. Agarrado  mo da me, Sam parecia um pouco assustado com a multido. Louise e o pai conversavam com os amigos.
A banda country j estava no palco, preparando os instrumentos. O cheiro de carne assada enchia o ar.
	Vamos buscar alguma coisa para comer  sugeriu Gray.
Ele conduziu Jill e Sam at uma mesa grande com vrios tipos de salada, po e pedaos de carne assada.
	Veja, Sam.  Jill apontou um caldeiro fumegante.  Tem cachorro-quente tambm. O que voc prefere?
Um pouco atrs deles, Gray os observava. Jill era uma me e tanto. Ela no ordenava nem mimava o filho. Apenas discutia as questes de um modo sensato.
	Eu prefiro cachorro-quente, mame.
	Com fritas?
	Sim.
Depois, Jill pegou outro prato, onde colocou uma fatia de melo.
	Voc no comeu fruta hoje, e este melo parece delicioso.
Naquele momento, algum empurrou Gray. Era Ron Thurrell, ansioso para chegar  mesa. Parecia que ele j bebera demais, e o lcool soltara-lhe a lngua.
	Grayson McCall, voc no deveria estar em casa, cuidando dos dois ranchos, esfolando-se de tanto trabalhar?
Os dois homens se encararam. As pessoas prximas  mesa pararam para olhar. Todos sabiam das diferenas entre os McCall e os Thurrell.
Thurrell no vira Sam, e sua barriga pressionava a cabea do garoto.
	Olhe o menino!  Gray exclamou rispidamente.
Mas Ron no o ouviu. Sob o efeito do lcool, ele falava com a lngua enrolada.
	Espere s. Espere para ver, McCall. Voc vai cair de joelhos. Voc vai me vender. No d para continuar sem dinheiro. Seu pai foi muito esperto. Ele sabia disso e eu tambm sei. Espere s, McCall.
Ele riu, e com os cotovelos, abriu caminho at a mesa, quase derrubando Sam. O menino levou a mo  orelha e ameaou chorar.
Segurando os dois pratos de Sam, Jill fez meno de coloc-los sobre a mesa. Gray no hesitou. Esquecendo momentaneamente as ameaas de Thurrell, ele enlaou Sam pelos ombros.
	Tudo bem?
	Ele machucou minha orelha.
	Ele  muito desajeitado, no ?  Ele afagou o ombro do menino.  Ele nem percebeu. J passou a dor?
	J.
	timo.
	Obrigada, Gray  agradeceu Jill.
Ela levou Sam at umas cadeiras alinhadas contra a parede. Depois de acomodar o filho, Jill voltou  mesa e serviu-se de churrasco e salada e esperou por Gray, que fazia seu prato.
Louise e o pai ainda estavam conversando com os amigos. Certamente, havia pessoas com quem Gray gostaria de conversar tambm. No entanto, ele foi sentar-se com Jill e Sam. No demorou muito para o menino fazer amizade com as outras crianas. Jill e Gray ficaram a ss.
No era um bom lugar para conversarem. A banda j estava tocando, as pessoas conversavam, riam e danavam. O barulho era intenso.
Talvez, por isso aconteceu. Eles se inclinavam, quase se tocando, para se fazerem ouvir. Estavam muito prximos. E de alguma forma, tudo se transformou em uma sensao de intimidade. Os pensamentos. O estado de esprito. As coisas que queriam dizer. Sen que nenhum dos dois percebesse, a conversa fluiu e mudou. De repente, estavam falando de amor, esquecidos de Ron Thurrell, de Sam, de Louise, do vov, de tudo o mais.
	Voc acredita no amor, Gray?  Jill parecia insegura, como se estivesse procurando por respostas. Isso surpreendeu Gray, pois, at ento, estava convencido de que ela tinha mais respostas do que ele.  Voc sabe o que  amor?
Gray suspirou. Ele nunca resistira aos encantos dessa mulher sempre que ela precisara dele. Para um rancheiro simples e calado, ele at podia ser eloquente sob a influncia daqueles encantadores olhos verdes fixos nos dele. Ele nem ouvia mais o barulho ao redor.
	No tenho certeza se eu sei  disse ele.  Mas sim, acredito no amor, e sei o que ele exige. O amor exige grandeza de uma pessoa.
	Grandeza?
	Penso que  preciso fora e coragem para amar realmente algum. Penso que a habilidade de amar verdadeiramente  sinal de grandeza... grandeza de corao, acho. As melhores pessoas que conheci na minha vida so as que realmente souberam... ou sabem... amar.
	Voc no acredita que voc tem essa grandeza de corao, Gray?
Jill estava inclinada para a frente, pernas cruzadas e braos ao redor dos joelhos. O ombro roava levemente no brao de Gray, e ele sentiu os plos arrepiados sob a manga da camisa.
	No sei. Espero um dia acreditar. Gostaria de ter o que minha me e meu pai construram entre eles.
	Voc acha que sou insensvel, porque vou me casar sem isso?  Os olhos verdes estavam anuviados.
Gray refletiu por alguns instantes, antes de responder corretamente.
	No acredito que voc se casar sem amor. Voc tem uma ideia errada sobre o amor. E isso.
	Voc est querendo dizer que eu no vou me casar com Alan?
	No. Eu acho que voc vai amar Alan. O amor crescer em voc. Em ambos. Devagar, como o musgo crescendo na rvore. Voc s vai se casar com ele porque voc tem a intuio de que  o que vai acontecer. Acho que para muitas pessoas, a intuio fala mais alto. O amor no surge s apertando um boto. A intuio acende a luz, e o amor,- o amor verdadeiro e slido, vem depois.
	Talvez. Ou talvez, o amor no seja to importante quanto o respeito, o companheirismo ou as prioridades partilhadas  disse ela, erguendo o queixo em um gesto determinado.
	Como os filhos?
	Sam vem em primeiro lugar.  Ela ergueu ainda mais o queixo.
Gray pressentiu que aquela era uma frase que Jill j repetira a si mesma inmeras vezes. E ele no concordava com ela! Ele vinha observando o relacionamento deles, ainda que relutantemente, e no concordava com o que ela dissera.
	A felicidade de Sam no depende da sua? Ele ser feliz se voc se sentir miservel? Voc poder dar-lhe o que ele precisa, se voc estiver infeliz?
	Se Sam estiver feliz, eu no serei infeliz  afirmou ela automaticamente. Como se j tivesse repetido a frase muitas vezes. Ela endireitou o corpo, ereta na cadeira, os braos defensivamente cruzados no peito.  Se Sam estiver feliz, eu tambm estarei feliz.
	Voc est errada, Jill. No  bem assim. Nunca ser.  preciso ver os dois lados. Voc tem que encontrar alguma coisa que seja boa para vocs dois.
Vendo o ricto obstinado dos lbios dela e rubor que comeava a cobrir-lhe as faces, Gray no disse mais nada. Ele j falara demais. Por que semear a dvida na cabea dela? Jill parecia to clara e confiante em relao a seus planos, a Alan, e ele no tinha nada para oferecer-lhe.
Ou tinha? Por um momento, ele visualizou alguma coisa mgica, alguma coisa parecida com o que seus pais tinham vivido, apesar dos problemas entre Mitch e o padrasto.
A dvida, ento, absorveu a viso etrea, e ele resmungou em voz alta:
	Eu entendo. Isso no significa que eu possa conseguir tambm.  to difcil...
	O que voc disse, Gray?  Jill olhou-o confusa por alguns segundos. Depois, compreendeu. Ah, j sei. Voc est falando do rancho. Voc est falando de sua famlia e do rancho.
Gray confirmou iom um gesto lento de cabea. Provavelmente, estivesse falando, sim. Tudo voltava ao pai e ao rancho. Tudo voltava ao pai, cuja morte repentina ainda pesava em seu corao.
	Eu estou errado? Comparar-me ao melhor homem que eu j conheci?
Jill ouviu a pergunta intensa, emocional e entendeu exatamente o que se passava no ntimo de Gray, em relao ao pai. Ela se revoltou.
	Pare com isso, Gray!
	Como assim?
	De comparar-se dessa maneira!
Instintivamente, ela se voltou para olh-lo, pressionando o joelho na perna dele. Ele endireitou o corpo, os olhos negros fixos no rosto dela.
	Cada um  como   continuou ela.  As pessoas so diferentes. As situaes so diferentes. As foras so diferentes. No acredito que seu pai era melhor do que voc. Talvez, ele tenha errado ao comprar Thurrell Creek. Voc j pensou nisso?
Voc sabe, cada um tem sua prpria batalha na vida, Gray. Pare de olhar para a batalha que seu pai teve, e comece a sua prpria batalha.
Alguma coisa surgiu da multido e correu para os braos dela. Era Sam.
	Mame, as crianas falaram que aqui tem galinhas e ovos para recolher. Posso ir recolher os ovos?  Ele estava corado e ofegante. Os cabelos estavam despenteados e cheios de feno.
	O que acha de descansar um pouco? Voc est cansado.
	Ah, me. Eu no quero ir para casa ainda.
	Eu no disse isso.  O olhar splice do filho venceu-a.
 Est bem. V recolher os ovos. Mas nada de baguna, hein? V com calma.
	Est bem. Tchau, me.
Sam desapareceu pelo mesmo lugar de onde surgira. Gray se levantou.
	Vou conversar com algumas pessoas  ele informou com o familiar tom enrouquecido.  J volto.
Jill acompanhou-o com o olhar, perguntando-se o que ele estaria pensando dela, depois do pequeno sermo. Talvez, ela exagerara. Na verdade, ambos tinham deixado alguma coisa para o outro refletir a respeito. O que Gray dissera ainda ecoava em sua mente.
O amor comea com intuio e cresce lentamente.
Isso no refletia a experincia dela. Ela cara de amores pelo pai de Sam, Curtis. Amor? No. Impetuosidade de adolescente e a sensao de ter conquistado um prmio disputado por dezenas de outras garotas. Conhecera Curtis atravs da irm mais nova dele, que patinava com o mesmo treinador de Jill. E sentira-se secretamente triunfante, pois, entre todas as garotas do ringue, ele a escolhera. O que ela no sabia, era que o interesse dele seria demasiadamente curto.
Claro que no era amor.
Na poca, ela no percebera. Percebia agora.
E Alan?
O amor cresce devagar, como o musgo na rvore. A princpio,  intuio.
Qual era seu ponto de partida com Alan? Ela no tinha um nome para isso, mas a palavra que Gray usara, no se encaixava.
Se o amor poderia crescer ao longo dos anos, outras coisas tambm poderiam crescer. Coisas como desiluso, rejeio, frieza, desespero...
	Encontrei um ovo, mame!
	Que bom, Sam.
Jill abraou o filho, as dvidas ainda pululando em sua cabea. Sam parecia ser o nico ponto de equilbrio em seu universo.
Seu filho e algumas palavras de Grayson McCall. Ela poderia ficar sentada ao lado dele, a noite toda, naquele galpo barulhento e lotado, tentando conversar sobre... tentando encontrar sentido no,., emaranhado de sentimentos que invadiam o corao deles.
No h necessidade de voc e Gray irem embora, Jill  sentenciou Louise, uma hora mais tarde.
Sam estava cansado, agradavelmente cansado com quatro ovos em uma caixa de papelo, e adormecera no banco traseiro da van de Louise.
Ela insistira para irem com dois carros, justamente para o caso de algum preferir voltar mais cedo para casa. E parecia que estava acontecendo o que ela previra.
	O baile comeou agora, e ainda vo servir sorvete  Louise continuou.  Sam j dormiu, e eleja me conhece muito bem e no vai estranhar quando eu o levar para a cama. Fiquem. Vocs dois merecem divertir-se um pouco!
Sem esperar pela resposta, ela dobrou a jaqueta para servir de travesseiro para Sam. Depois, sentou-se ao volante. Vov Pete acomodou-se ao lado dela.
Gray e Jill entreolharam-se.
	Parece uma boa ideia  disse ele.  Que tal um sorvete?
	Maravilha!
Jill perguntou-se o que mais ele estava lhe oferecendo, e o que mais ela prometera com sua resposta.
Louise e Pete partiram momentos depois. Jill estava tranquila em relao a Sam. Louise cuidava muito bem dele. J no sentia a mesma tranquilidade  prpria habilidade para lidar com Gray na noite que estava apenas comeando. Certamente, Louise no agira de caso pensado. Ou agira? Por que ela planejaria aquela situao? No, ela no ia querer que alguma coisa mais profunda crescesse entre o filho dela e uma me solteira que se abalara de Philly, Pensilvnia, at Blue Rock, Montana, em busca de um divrcio rpido.
Louise era uma mulher prtica. Ela enxergaria os obstculos to claramente quanto Jill e Gray.
Mesmo assim, a estranha sensao persistia. Louise planejara tudo. Ela queria que os dois ficasse sozinhos em meio  multido da festa.
Sozinhos, tomando sorvete e danando.

CAPTULO VIII

Fazia muito tempo que Gray no danava assim com uma mulher.
Ele imaginava que Jill danava bem. Afinal, ele a vira danando no gelo, como se seus ps tivessem asas e no patins com lminas de metal. Por isso, o fato de danar bem no o surpreendia. O que o surpreendia era que ela o induzia a danar bem!
A banda comeou a tocar uma seleo de msica tipicamente country. Jill e Gray formaram um grupo com mais trs casais. Todos j tinham danado aquele tipo de msica. Menos Jill que era uma moa da cidade. Mas ela tinha a msica no sangue e sabia como movimentar o corpo.
 Faa como eu, querida  disse Dris, uma das mulheres do grupo.  Observe como Henry e eu danamos.  muito fcil.
No demorou muito e Jill j estava danando e rindo. Eles enlaavam os braos e os soltavam. Gray passava o brao na cintura de Jill, depois na de Dris, e depois em Jill novamente. Seu corao exultava de alegria. Os quadris e os seios dela balanavam sensualmente.
Ela sorria, flertava com Gray, lanando-lhe olhares sobre o ombro enquanto rodopiava com outro par, deslizando, depois, novamente para os braos dele.
Era permitido flertar durante a dana. Flertar e danar era muito divertido, e Gray pegou-se pensando no futuro com mais otimismo do que o normal, contanto que Jill fosse sua parceira.
O que era impossvel.
Seu corao se apertou no final da msica. A dana terminara. Seu tempo com Jill tambm. Ela e Sam partiriam na segunda-feira.
De repente, a dana em grupo j no era suficiente. Gray queria mais. Ele queria aproveitar ao mximo, enquanto podia. Mas a sorte estava do lado dele. A banda recomeou a tocar, e logo nos primeiros acordes, todos perceberam que tratava-se de msica lenta.
O cantor comeou a cantar canes de Elvis Presley. Ele no poderia ter escolhido melhor. Love me Tender, e Gray to-mou-a nos braos, antes mesmo de parar para respirar.
Jill tambm no parecia disposta a dispensar a dana, ento se aninhou nos braos dele, deitou a cabea no ombro e enlaou-o firme pela cintura. Ela encostou o corpo no dele.
Oh, cus! Ela logo perceberia o que aquilo estava fazendo com ele...
Aparentemente, porm, Jill no se importava.
Gray sentiu o suspiro dela em seu pescoo, e arrepiou-se todo. As mos dela desceram um pouco, parando no alto das coxas dele.
	Os cowboys ficam muito bem de jeans  ela murmurou.
	As cowgirls tambm  Gray conseguiu responder.
	Eu no sou cowgirl.
No, mas voc fica to bem de jeans que eu nem consigo pensar direito. J no sei mais o que voc , Jill, ou quem voc . S sei que eu a quero aqui. Nos meus braos. Assim. A noite inteira.
As palavras pairavam no ar, mas ele no as pronunciou. No se atreveu a tanto. Eles estariam legalmente casados por mais alguns meses, e ele a queria muito mais do que j desejara outra mulher. Entretanto, passar a noite com ela, sabendo que Jill partiria dentro de dois dias, no era como roubar um beijo de despedida.
Passarem a noite juntos, seria um incio, no um fim. E naquele momento, ele s precisava encontrar uma maneira terminar com aquele clima.
Impossvel.
Terminar? No quero que termine!
Seu corpo dizia que era loucura.
Terminar? No. Envolver-se. Entregar-se. Continuar. Render-se.
Render-se soava to doce, to atraente, naquela noite.
Um tremor sacudiu-lhe o corpo. Devagar, ele virou a cabea e beijou-a avidamente, de olhos fechados, ao som de outra msica do Elvis.
Muitas msicas depois, Jill ainda estava presa nos braos de Gray, e ele se sentia como se tivesse perdido a chave. Os seios dela eram montes eretos e quentes contra seu peito, e o calor do corpo dela fundia-se com o dele.
	Quer ir para casa?  ele perguntou, pensando em seu quarto, em sua cama, na escurido, e no fato de serem casados, independente das circunstncias. Talvez, chegara o momento de descobrirem o que isso realmente significava. De explorarem as possibilidades que se abriam.
Oh, sim, as possibilidades...
	Para casa?  ela repetiu. A voz soou confusa e... de cepcionada.
	Bem, ns poderamos... h... conversar.  Eles tinham conversado muito e ele ainda estava pensando em algumas coisas que ela dissera. Na verdade, ele no estava pensando exatamente em conversar e Jill sabia disso.  S ns dois. Eu quero... eu gosta/ia que fosse esta noite, Jill.
Bingo! Ele conseguira falar!
O corao de Gray batia como um tambor. Suas mos deslizaram pelas pernas dela, reclamando-lhe o corpo, pressionando os quadris contra os dela, prendendo-a. Ela s se moveu, se isso era possvel, para mais perto ainda.
	Eu quero abra-la. Apert-la...  De novo, ele provou do gosto da boca de Jill e suas mos procuraram pelos seios dela. Os bicos estavam enrijecidos.  A noite inteira.
	Oh, Gray...
Abraados, chegaram at a picape. De alguma forma, ele dirigiu at o rancho. Nenhum dos dois conversou. Ele se sentia to cheio de palavras loucas e impetuosas que no ousava abrir a boca, com medo que elas explodissem.
Jill pousou o rosto no ombro dele e a mo na perna. E mais uma vez, murmurou seu nome:
	Gray...
Havia um misto de desejo e medo em seu tom de voz. Ele tirou uma das mos do volante e, enlaando-a, puxou-a de encontro ao peito. Com relutncia, ele a soltou na curva seguinte.
Quando chegassem em casa...
	Mame deixou a luz da cozinha acesa para ns  disse Gray.
Ele estacionou no meio do ptio, aproveitando um pouco mais a escurido. Imediatamente, Jill aninhou-se nos braos dele. A noite estava agradvel. Agradvel demais para aquela poca do ano. Algumas nuvens densas ameaavam encobrir a lua, e instintivamente, bem no fundo do crebro, Gray registrou que teriam tempestade dentro de um ou dois dias.
Ainda tinham gado para recolher, rao para estocar antes que o inverno chegasse. Pela primeira vez na vida, ele no estava pensando no rancho, no estava tentando adivinhar o que o pai teria planejado.
	Jill, eu a quero como um louco.  Segurando-lhe o queixo, ele ergueu o rosto dela para ver dentro dos olhos verdes e profundos. Eles eram grandes e suaves, como a boca.  No sei me expressar melhor do que isso. No quero dizer apenas... Voc sabe que eu no quero dizer apenas...
	Eu sei. Eu sei, Gray.
Jill acariciou-lhe a nunca e Gray sentiu a leve presso das unhas dela. Depois, ela enterrou os dedos nos cabelos dele. Gray estremeceu. Eles no precisavam mais de palavras para expressarem o que ambos sentiam e queriam. Ele queria afogar-se na boca de Jill, afogar-se em seu corpo inteiro. Afogar-se nos carinhos dela, no desejo intensamente mtuo.
Com esforo, saram do carro e arrastaram-se para dentro de casa. Depois, s subirem silenciosamente a escada e...
No era possvel.
	Me?  A voz dele soou estridente.  O que faz ainda acordada?
A porta da cozinha bateu ruidosamente atrs dele. Jill desvencilhou-se dele e trancou-a.
Louise olhava para a xcara de ch quente diante dela. Ela ergueu os olhos vermelhos e o nariz inchado de chorar. Ela no disse nada.
	O que aconteceu?  Gray sentou-se ao lado da me.  Vov?
Jill encheu a chaleira de gua e levou-a ao fogo. Louise tentou sorrir.
	No, ele est bem.  que... recebi um telefonema de Mitch.
Gray sentiu um aperto no estmago. Depois de dois anos, Mitch telefonara, afinal. Isso deveria der deixado a me feliz, e no entanto, ela estava ali, em lgrimas. Como Mitch tinha coragem de fazer isso com a prpria me? Ele no era mais uma criana. Tinha trinta e seis anos!
	O que ele queria?  Gray perguntou.  O que ele falou?
	Nada. Deixe-me explicar. A bem da verdade, no foi ele quem ligou. Foi a... namorada dele, digamos assim. Fi ela. Ela telefonou. E disse que faz mais de seis meses que est tentando convenc-lo a me telefonar. Seis meses! Gray, eles tm um filho.
	Um filho!
	Ele e essa garota... ela me pareceu uma boa moa. O nome dela  Lena. Eles tm um filho de seis meses, quase sete, chamado Cody, e eu nem sabia. Se Lena no tomasse a iniciativa... Se ela no quisesse que o filho conhecesse a av... Se ela no tivesse pressionado Mitch... at quando ele esperaria para me contar?	'
As lgrimas escorriam pelo rosto de Louise. A gua fervia na chaleira. Em silncio, Jill preparou o ch e encheu duas xcaras. Depois, completou a de Louise.
	Parabns pelo netinho  ela a cumprimentou.  Agora voc  vov.
	Obrigada, querida.  Louise sorriu entre lgrimas. Depois, continuou:  Realmente,  uma boa notcia. Eu sou vov. Lena disse que o beb est muito bem. J sorri, d risada e j est querendo engatinhar. Ele tem olhos castanhos e cabelos anelados. Eu senti que Lena est esperando que Mitch se case com ela. Oh, Deus! Como eu ia descobrir, se essa moa no tivesse ligado?  Louise repetiu.
Talvez, nunca. Nenhum deles disse nada, mas todos sabiam. O beb deveria ter uma semana ou duas de vida quando Gray procurou o irmo em Ias Vegas, em maro, mas Mitch no comentara absolutamente nada.
	Voc quer ir conhecer o menino, me? Acho que Lena gostaria que voc fosse. Seria uma oportunidade para voc e Mitch...
	Voc sabe muito bem que eu no posso, Gray. No neste momento, com as coisas do jeito que esto.  Louise encolheu os ombros.  Terei que esperar para conhec-lo quando ele estiver maior.
O tom de voz e os modos indicavam que ela no se importava em esperar, mas Gray percebeu como as mos trmulas apertavam a xcara. Os dedos estavam to tensos que mais pareciam garras.
	At quando voc vai esperar, me?
	Oh. voc sabe, at...  Ela no completou a frase. Um ano? Dois? Poderia passar muito tempo, at as coisas melhorarem no rancho. Se eles tivessem sorte.
	No!  A palavra foi quase uma exploso.  No  justo voc ter que esperar tanto para conhecer seu neto. Muito em breve voc ir conhec-lo, me.
	Como?  indagou ela.  Como, Gray?
	Daremos um jeito. No ms que vem, Est bem?
Louise comeou a enumerar todas as razes pelas quais ela no poderia ausentar-se do rancho.
	Eu no ouvi nada do que voc disse  Gray disse, categrico.  Voc vai e pronto.
	Ora, Gray, sejamos realistas. Eu simplesmente no posso ir para Las Vegas.
	Voc vai, mame  ele repetiu.  Daremos um jeito.
A discusso prosseguiu por algum tempo, cada qual defendendo sua posio com palavras inflamadas. At Jill interromp-los timidamente.
	Desculpem, eu vou subir. Vocs no precisam de mim e parece que Sam est chorando. Com licena.
A ss com o filho, Louise comentou:
	Eu esperava que voc demorassem mais para voltar. Assim, eu teria tempo para recompor-me. Eu no queria estragar a noite de vocs. Eu sabia que ia terminar assim. Sinto muito, Gray.  Ela se levantou e saiu da cozinha.
Com os cotovelos na mesa, Gray escondeu o rosto com as mos. Sentia-se intil, infeliz e desanimado. Conhecia a teimosia, o orgulho e as prioridades da me. Sabia tambm dos sentimentos dela. Naqueles dias, enquanto trabalhavam juntos, ele falara muito de Louise para Jill.
Louise tambm nascera em Blue Rock, no pequeno rancho de Pete e Alice. Vov Pete era tambm proprietrio da loja de ferragens de Blue Rock.
Blaine Kruger aparecera na cidade quando Louise Marr tinha apenas dezessete anos. Ele era um homem de vinte e cinco anos, falante, muito simptico, que comprava propriedades retomadas pelos bancos por falta de pagamento, para depois revend-las com lucro.
Esse tipo de negcio no o deixou to rico quanto ele esperava, mas ele ganhou dinheiro suficiente para estabelecer-se em Las Vegas. J casada com ele, Louise o acompanhou. Tinha dezoito anos quando Mitchell nasceu, e dezenove, quando separou-se, por causa das frequentes aventuras amorosas de Blaine.
Aos vinte anos, voltou para Montana com o pequeno Mitch nos braos. Meses depois, conheceu Franklin McCall na loja de ferragens do pai. Eles se casaram quando Louise completou vinte e dois anos.
Blaine Kruger via o filho nas frias de vero, no Natal, e nos intervalos, sempre que quisesse. Gray no sabia se Blaine, premeditadamente, jogafa Mitch contra o padrasto e a vida no rancho, ou se isso acontecera naturalmente, por conta dos presentes caros que ele trazia em cada visita ao filho.
Qualquer que fosse a razo, comeou cedo. Gray lembrava-se, desde seus cinco ou seis anos, das queixas de Mitch.
 Odeio este maldito rancho!  repetia ele.
Aos dezenove anos, Mitch foi morar com o pai em Las Vegas, e agora, era um homem rico.
Ao contrrio do irmo, Gray sempre amara o rancho. Nunca imaginara sua vida longe daquelas terras, e seus pais e avs sabiam disso.
Quando vov Alice morrera, oito anos atrs, Pete vendera a loja de ferragens e o rancho. Com o dinheiro da venda, ele insistira em construir a casa nova no alto da colina. Era parte do futuro de Gray, segundo ele.
Gray sabia o quanto doa em vov Pete ver a imensa casa nova alugada para algum milionrio de Hollywood que mal aparecia por l. Enquanto isso, a velha casa, plantada naquele lugar por mais de oitenta anos, j no era mais o alojamento de pees e empregados do rancho, mas sim, a residncia da famlia.
E no topo de tudo, estava a discusso de Gray e Louise, porque ela sabia, e ele se recusava a admitir, que no podia dar-se ao luxo de visitar o neto em Las Vegas, em um futuro prximo.
Como tudo se transformara naquela grande confuso? E como ele poderia pensar em levar Jill para a cama? Ela iria embora na segunda-feira, e a vida dele estava assim.
No poderia. Nem em um milho de anos.
Ele jogou resto de ch na pia e saiu da cozinha, em direo  escada.
Por que ele est chorando?  Gray murmurou.
Jill caminhava pelo quarto com Sam nos braos. O menino ainda chorava no ombro da me.
	Foi um pesadelo.  Jill acariciava as costas do filho.  Ele estava muito cansado. Alm disso, exagerou no bolo e no refrigerante. Voc est com dor de barriga, ou coisa assim, querido?
	Estou com sede.
	Sua barriga est doendo?  ela insistiu.
	Est.
	Vou buscar um copo de gua.
	Posso segur-lo?  Gray se ofereceu, estendendo os braos.  Acho que temos remdio para o estmago.
Sam agarrou-se no pescoo da me, apavorado.
	No! Remdio no!  ele gritou, encolhendo-se.  Eu no quero ficar com voc. Quero ficar com a minha me.
Gray no escondeu a decepo.
	Ele est cansado  Jill ponderou.
Muitas vezes, na infncia, Gray ouvira a me repetindo essas mesmas palavras para Frank, tentando justificar as atitudes rudes de Mitch. A lembrana passou em sua mente, machucando. Frank nunca se impressionara com as desculpas de Louise. Ele afirmava que ela estava sendo tolerante demais com o filho mais velho, estimulando seu mau comportamento.
	Eu vou buscar gua para ele  disse Gray com voz firme que no traa seus sentimentos.
Depois de beber gua, Sam quis ir ao banheiro. Gray levou o copo vazio de volta  cozinha. Quando ele retornou ao quarto, Jill colocava o filho na cama.
Ele a observou, sentindo o amor de Jill pelo filho como algo vivo e quente dentro dela. Ela acariciava o rosto de Sam, cantarolando uma cano de ninar. Sam fechou os olhos e ela se levantou na ponta dos ps.
	Ele dormiu  ela disse j no corredor.
	Ele ouviu minha me e eu... conversando? Achei que ele tivesse acordado por isso.
	No, Sam estava exausto, com sede e comeu demais. Alm disso, s vezes, ele tem pesadelos. Este ano no foi fcil para ele. Eu contei do incndio na casa da prima Pixie, em julho, no? Isso o afetou demais. Eu estou muito preocupada.
	Ele  um bom menino, Jill. Voc no precisa se preocupar com ele. Ele est no caminho certo. Tenho certeza.
	Obrigada, Gray. Fico contente por ouvir isso.
Ambos estavam se rodeando, tentando recuperar o que haviam perdido ao chegar em casa. Mas no era suficiente. Nada traria o que tiveram at meia hora atrs. A promessa de uma noite juntos, e o incio de alguma coisa mais.
	Sinto muito por t^-lo irritado por causa do remdio  Gray desculpou-se.  Ele me olhou como se eu tivesse lhe oferecido veneno!
	No o leve to a srio, Gray. Ele estava cansado.
	J ouvi essa desculpa antes.
	Voc ficou tenso. E bravo. Por qu, Gray?
	Bravo comigo mesmo.
	Por qu? No foi s por isso.
	Porque eu no ganhei a confiana dele. Tentei, mas no consegui.
	Voc conseguiu. E que ele estava...
	Cansado. J sei.  Ele no acreditava nas prprias palavras. S no queria discutir.
	Mas voc est magoado com Sam.
	Por ele no me dar uma chance.
	Ele deu. Muitas vezes.  voc quem no est dando uma chance a si mesmo, Gray. Pense bem antes de fazer acusaes como essa! De novo, voc est lutando as batalhas de seu pai. Felizmente, eu no estarei aqui para ver o final da batalha, porque, sinceramente, eu duvido que voc saia vencedor de uma briga que no  sua. Estou contente por ir embora se-gunda-feira. Muito contente!
A voz ameaou tremer, mas Jill conseguiu mant-la firme.
	Sim, tudo ser mais fcil  ele concordou.  Para ns dois.
Seguiu-se um longo silncio.
Durou o tempo suficiente para Jill tomar conscincia da proximidade de Gray, no corredor escuro, diante da porta do quarto onde Sam dormia. No querendo acordar ningum, instintivamente, eles falavam em voz baixa.
Cada palavra que pronunciavam, era tensa e esfriava mais um pedao do calor da intensa atrao fsica entre ambos. Jill queria ignorar os problemas e, simplesmente, toc-lo. Queria descansar a cabea no peito dele, sentir sua fora, beij-lo como o beijara antes, no ptio, com todo ardor e desejo e certeza.
Ela no precisava ouvir as palavras dele para saber que isso no tornaria a acontecer.
	 tarde, Jill.  melhor voc ir dormir.
	Sim.
Quando eu for embora, Gray nem vai notar. Mais dois dias, e no estaremos mais aqui. Acho que ele vai pensar um pouco em ns...
Gray se lembraria de uma brincadeira que fizera com ela, dos poemas que ele lera para Sam. Talvez, tambm se lembraria de como ela se sentira nos braos dele. Mas por pouco tempo. Logo ele esqueceria tudo.
Mais algumas semanas e tudo isso, esse tempo que passei aqui, e tudo o que ele me fez sentir, desaparecer para sempre.
CAPTULO IX

Na manh seguinte, Gray levou Louise, Jill e Sam  igreja. Vov Pete decidiu no acompanh-los.
	Estou com dor no ombro. Prefiro ficar descansando.
O tempo ainda estava bom, mas at mesmo Jill pressentia que no ia durar. Quando chegaram em Blue Rock, a temperatura comeava a cair, e uma hora depois, ao final da missa, alguns flocos de neve j estavam caindo.
Ao voltarem, a casa estava silenciosa.
	Onde ele est?  Louise resmungou.  Se ele saiu com um tempo destes...
Ela no concluiu a frase. Louise estava abatida e triste. E para piorar, ela e Gray quase no tinham se falado. Provavelmente, por saberem que qualquer palavra poderia desencadear nova discusso e eles no queriam discutir na frente de estranhos.
Eu e Sam, Jill pensou.
	Pai?  Louise chamou abrindo a porta dos fundos.
Nenhuma resposta.
	Vou ver se ele est com os cavalos  avisou Gray, dirigindo-se  cocheira.
Jill acompanhou-o com olhar faminto. Ela amava o andar daquele cowboy, amava a firmeza daqueles passos e o modo como pisava o cho debaixo de seus ps.
Ela entrou atrs de Louise, pensando no almoo de Sam.
	Ah, eu sabia!  exclamou Louise.  Eu sabia que no deveria t-lo deixado sozinho. Veja, ele deixou um bilhete, avisando que foi recolher gado.
	Como assim?  Jill perguntou confusa.
	Ainda temos alguns animais no pasto prximo s montanhas Blackjack. Ainda no tivemos chance de traz-los para mais perto. Ele anotou o horrio aqui no bilhete. Nove e quarenta e cinco. Dez minutos depois que samos para a igreja.  Louise verificou as horas no relgio de pulso.  Onze e meia. Ele deveria ter voltado quando comeou a nevar. Jill, por favor, diga a Gray... Gray j estava de volta.
	Ele saiu com o four-wheeler  ele disse.
Jill sabia que esse era um veculo pequeno, uma espcie de moto com quatro rodas, prprio para terrenos acidentados, que muitos rancheiros utilizavam no lugar de cavalos.
	Por que ele no foi com Madie?  Gray continuou.  Pelo menos a gua cuidaria dele, em caso de algum problema. Ele fica louco com esse four-wheeler... vai at lugares que s se chega a cavalo. Acho que ele no imaginou que a neve viesse to rpido. Me, vamos comer alguma coisa e depois...
	No posso.  Louise apoiou as mos na mesa e abaixou a cabea, em um gesto de desespero.
	No pode comer?
	No posso ir. Eu quero. Mas no posso. No dormi nada esta noite. No... eu no posso.
Ela tremia tanto que a mesa balanava. Rapidamente, ela levou as mos ao peito e agarrou a blusa de seda. Jill achou que ela estivesse sentindo alguma dor..
	Respire fundo, Louise  aconselhou ela.  Vou preparar-lhe um ch... ou chocolate quente.  Alguma coisa que suprisse suas energias.  Sente-se aqui. 
Jill acomodou-a em uma cadeira. Seus olhos tambm estavam cheios de lgrimas e sua garganta doa. Afeioara-se a essa mulher valente e generosa. No se sentia como uma hspede temporria. Era como se ela e Sam fizessem parte daquele universo.
	Vou preparar sanduches ou alguma outra coisa rpida. E depois... depois... Sam, voc toma conta de Louise? Ela no est se sentindo muito bem. Voc poder pegar seus livros e contar algumas histrias para Louise enquanto eu vou com Gray procurar o vov Pete.
Jill comeou a fazer os sanduches.
	Ele est perdido?
	No, meu bem, ele no est perdido. Mas foi fazer um trabalho difcil para ele sozinho, por causa do tempo, e ns precisamos ajud-lo.
Ns?
Bem, ela no imaginava como poderia ajudar, mas a ideia de Gray saindo sozinho atrs do av, no era nada agradvel. Um mau pressentimento pairava no ar. Alguma coisa estava errada. Pete j deveria ter voltado.
	Isso mesmo, Jill  concordou Gray.  Faa os sanduches. Vou selar Highboy e preparar a picape.
	No bilhete, ele diz que levou o rdio  Louise disse ainda com voz trmula.
Depois de tantos meses de tenso e autocontrole, Louise chegava ao limite de suas foras, fsica e emocionalmente. Seu estado agravara-se com as notcias de Mitch e do neto.
	Vou buscar o outro e tentar contato com ele  Gray disse.  Quem sabe, ele esteja tentando comunicar-se conosco.
Mas nem sinal de Pete.
Jill acomodou Louise e Sana no sof da sala e levou um prato com hambrgueres para eles comerem.
	Acho que vou ficar doente  queixou-se Louise.  Gripe, vrus, qualquer coisa assim.
Ela parecia atordoada com o prprio estado de sade e emocional. Jill voltou  cozinha e telefonou para a dra. Blankenship.
	Quer saber de uma coisa? Vou dar um pulo at a  disse a mdica com voz decidida.  Voc fez bem em ligar, Jill. Isso no  normal na Louise McCall que eu conheo.
	Ele teve um aborrecimento, ontem  noite.
	Talvez, ajude conversar um pouco.
	Acho que sim.
	Estarei a dentro de meia hora.
	Obrigada, doutora  Jill quase gritou de alvio.
Gray j selara o cavalo e levara a picape para o ptio. Ele foi na frente com Highboy e Jill seguiu-o de carro. Tensa, ela segurava o volante com fora. Que loucura! Como podia dirigir em um caminho to acidentado, com a neve caindo cada vez com mais intensidade?
Gray estava com o rdio ligado, mas Jill no saberia dizer se ele estava obtendo resposta ou no.
Em um determinado ponto, Gray desmontou e acenou para ela parar. Jill parou e abriu o vidro do carro.
	Algum sinal?  ela perguntou.
	Esttica. Ou o rdio est desligado ou...
	Como vamos fazer para encontr-lo?
	Rezar para que ele tenha seguido a rota bvia. Logo adiante, h uma fenda na terra, causada pela eroso. Voc ter que seguir comigo.
	Com voc? A cavalo?
	Sim.
Ela arregalou os olhos. Gray acrescentou:
	Voc  pequena. Vai caber. E Highboy  muito forte.
	Sei, sei.
O corao dela comeou a bater descontrolado. De repente, ele sorriu. O brilho maroto nos olhos dele atingiu diretamente a alma de Jill.
	Ser que, finalmente, descobri alguma coisa neste rancho que no a deixa feliz, Jill Brown?
	Voc sabe que eu nunca montei um cavalo em toda minha vida, Grayson McCall.
	Tudo isso  respeito pelo animal?
Aquela era uma palavra que Jill costumava usar com frequncia, mas naquela ocasio, ela tinha que admitir a verdade.
	Sim. Respeito soletra-se assim: m-e-d-o.
Gray no respondeu. Limitou-se a olh-la com expresso paciente e compreensiva. Esperando. Esperando at Jill capitular e dizer:
	Vamos em frente, Gray. Afinal,  apenas um cavalo. No um elefante.
Jill seguiu-o ainda por quase duzentos metros. Depois, ambos pararam. Gray tentou o rdio novamente e Jill desligou o motor do carro. Ela desceu e pegou a mochila com equipamentos de emergncia e aproximou-se de Gray.
Ele a ajudou a montar em Highboy. O cavalo danou, arranhou os cascos no cho, relinchou, mas Jill, de repente, viu-se em segurana e sentada onde deveria estar. Bem atrs de Gray.
Absolutamente atrs dele. O lado interno das pernas encostava na proteo de couro que Gray usava sobre o jeans. Os seios roavam nas costas musculosas. As mos apertavam a fivela prateada do cinto de couro, como tinham apertado o volante da picape. Ela sentia todos os movimentos de Gray, e inebriava-se com o cheiro dele, que hipnotizava seus sentidos.
	Relaxe  ele pediu.
	Estou relaxada.
	E voc quem est dizendo.
Gray no perdeu mais tempo. Estalou a lngua e esporeou o cavalo, recomeando a cavalgada. Aos poucos, Jill foi relaxando. Talvez, fosse efeito do corpo dele. Ela sentia o ritmo, a unidade perfeita de homem e cavalo. As costas de Gray protegiam-lhe o rosto, e ela no pensava em fazer mais nada, apenas sentar, observar, ouvir o mximo possvel.
No demorou muito para encontrarem Pete. Primeiro, ouviram seu chamado em meio  neve que caa.
	Gray,  voc?
	V? Onde voc est?  Gray virou-se um pouco, tentando identificar a direo da voz.
	Na fenda.
	Estamos indo.
Ele conduziu Highboy por uma faixa de grama at chegarem s margens da fenda. Ao longo dos anos, aquilo transformara-se em uma ravina de cerca de cinco metros, com laterais lisas e esfareladas. Eles avistaram Pete cado no solo acidentado. A perna dele estava em um ngulo estranho e seu rosto, arroxeado de frio. Jill e Gray desceram com cuidado para no escorregarem na encosta mida.
	Droga!  ele exclamou assim que viu os recm-chegados. Tentou apoiar-se no cotovelo para levantar-se, mas no teve fora.  Eu deveria ter vindo com Madie, mas achei que o four-wheeler seria mais rpido. Tolice de velho!
	O que aconteceu com o rdio?  Gray j desmontara e esticou a mo para ajudar Jill.
	Quebrou quando perdi o controle e ca do four-wheeler.
	Onde est o four-wheeler, v?
	Ali embaixo.
Pete indicou o fundo da ravina, onde o pequeno veculo estava com as rodas para cima, coberto por uma fina camada de neve.
	Voc quebrou a perna, v. Como vamos tir-lo daqui?
	Ponha-me no cavalo.
	Vai doer muito.
	Eu sei, Gray. J est doendo demais, mas estou com muito frio para ficar esperando at o resgate chegar.
	Trouxemos uma manta  Jill afirmou, abrindo a mochila. Ela ajeitou cuidadosamente a manta ao redor de Pete.
	Obrigado, querida, mas no vai adiantar muito. J faz mais de uma hora que estou aqui. No sinto minhas mos nem os ps. Na minha idade, isso  mais perigoso do que a perna quebrada. Tenho que sair daqui.
	Voc consegue mexer os braos?  ela perguntou.
	No quebrei a espinha, se  isso que voc quer saber. Estou apenas duro de frio... e furioso comigo mesmo por tanta burrice.
	Deixa para l, v. Poupe suas energias.
Com dificuldade, eles conseguiram levar Pete at Highboy e coloc-lo na sela.
	Jill, voc consegue conduzir Highboy at o carro? Vou ficar atrs do vov, para aquec-lo e segur-lo no lugar.
	Claro.  Jill pegou as rdeas com as mos enluvadas.
	Usque, gua ou chocolate, vov?  Gray ofereceu.  Trouxemos os trs.
	Usque.
Gray serviu-lhe uma dose generosa de bebida e montou em Highboy. Jill comeou a conduzi-lo devagar. Pete resmungou quando o lcool queimou-lhe a garganta. Ele bebeu tudo e cinco minutos depois, estava cantarolando.
	V, voc est bbado?
	No, apenas desviando a ateno da perna quebrada.
	L est a picape  anunciou Jill.
	Aleluia!  exclamou Pete, talvez um pouco mais alegre do que queria admitir.
Jill e Gray acomodaram-no o mais confortavelmente possvel no banco da picape.
	O caminho ainda no est totalmente coberto pela neve  disse Gray.  Se voc no se importar, vou na frente para chamar a ambulncia.
	A dra. Blankenship j deve estar em casa.
	O qu?
	Eu liguei para ela antes de sairmos e ela garantiu que ia em seguida. Eu estava muito preocupada com sua me, Gray.
	Deus a abenoe, Jill. Eu agradeo do fundo do meu corao.
Ele a segurou pelos ombros e a promessa de um beijo pairou no ar, clara e intensa quanto a neve que caa. Mas ele se afastou e nada aconteceu. Gray no queria perder tempo. Jill entendeu. Sentia a mesma coisa. Pete precisava de atendimento mdico.
Apesar do frio, Louise, Sam e a dra. Blankenship esperavam na varanda quando Gray e Jill chegaram com Pete. Embora com ar de choro, Louise parecia mais calma e controlada.
	Pai  ela murmurou.  Oh, papai, quando voc vai se convencer de que no  mais um garoto?
	Quando eu tiver cem anos!
Gray e a mdica levaram-no para o sof. Depois de examin-lo minuciosamente, ela decidiu que seria melhor lev-Jo para o hospital de Bozeman. Quando a ambulncia chegou, Louise fez meno de pegar as chaves da van. A dra. Blankenship antecipou-se.
	Nem pense em dirigir! Voc vai para o hospital, sim, mas comigo, no meu carro.  noite, Gray ir busc-la.
Louise no discutiu.
Quando a ambulncia partiu do rancho, o sol brilhava timidamente, comeando a romper a barreira de nuvens e transformando a neve em diamantes.
No silncio da cocheira, Gray tirava a sela de Highboy.
Ele sentia o corao em pedaos. Uma parte estava na ambulncia com o av, feliz e agradecida pelo fato de Pete estar vivo. Os animais que o av no conseguira trazer de volta tambm estavam vivos. A tempestade de neve terminara mais cedo do que Gray imaginara, e havia floresta suficiente para eles se protegerem nos pastos altos do Blackjack.
Outra parte de seu corao estava com a me, que estava  beira de um colapso nervoso. O afastamento de Mitch por tantos anos, a morte repentina do marido, a recusa de Mitch em comparecer ao funeral do padrasto, as dificuldades financeiras, tudo isso ferira-a demais. Mas ela sobrevivera. Porm, a impossibilidade de ir conhecer o neto de seis meses, fora a gota d'gua. A fortaleza foi abalada e ela desmoronou.
Mas chegara a hora de dar uma boa notcia  me. Ela conheceria o pequeno Cody muito antes do que imaginava, com grandes chances de entender-se com Mitch. Mas Gray ainda no lhe contaria nada. Esperaria at dar andamento nos planos. S ento, anunciaria que o momento chegara. Nada de "mas" nem "porqus". O rancho seria vendido.
Nas ltimas vinte e quatro horas, dois acontecimentos tinham precipitado essa deciso. O sentimento de Louise por Cody e o acidente de Pete.
A verdade era evidente e incontestvel. Eles no poderiam continuar daquele jeito. Uma mulher de cinquenta e quatro anos no podia conhecer o neto porque no tinha tempo nem dinheiro para afastar-se do rancho... Um homem de setenta e cinco anos considerava-se um idiota s porque tentou recolher alguns animais, sob uma tempestade de neve, em um veculo que ele nem sabia dirigir direito. Ele danificara o veculo, o rdio... e eles no tinham dinheiro para consert-los ou substitu-los. Sem falar que ele quebrara uma perna e quase morrera de frio!
Oh, sim, o momento chegara. Gray procuraria um corretor em Bozeman e colocaria Flaming Hills oficialmente  venda.
E quando Jill e Sam fossem embora, no dia seguinte, levariam outro pedao de seu corao. E pelo resto de sua vida, ele se perguntaria se as coisas teriam sido diferentes.
Muito diferentes.
Se eles tivessem mais tempo. Se no existisse um homem prtico chamado Alan na vida de Jill, que certamente entendia que amor e casamento significavam muito mais do que Gray imaginava. Se ele no estivesse tentando, ainda tentando, apesar do que Jill dissera na noite anterior, lutar as batalhas do pai...
Ele escondeu o rosto no pescoo de Highboy. O animal danou, depois olhou-o como se dissesse: Hei, o que deu em voc, hoje? Onde esto as mas e os torres de acar? Eu mereo, no?
 Sim, voc merece, amigo  disse Gray em voz alta, tirando o pote de acar de dentro do armrio.

CAPITULO X

As sete horas da manh de segunda-feira, Jill j estava quase de malas prontas. S faltava o pijama de Sam, que ainda dormia.
Ajoelhando-se no cho, ela puxou o zper da mochila, deixando-a meio aberta.
	Nossas frias acabaram?  A voz ainda sonolenta de Sam sobressaltou-a.
	Que pena, no?
	Ns podemos voltar logo, mame?
Oh, no!
	 muito longe, mel bem.
	Ento, eles poderiam ficar conosco, na casa da prima Pixie.
	Talvez.
Ela quase no vira Gray desde que voltaram com Pete, no dia anterior. Ele passara resto da tarde ocupado no rancho. Depois do jantar, ele fora buscar Louise no hospital, onde o av ficara, pois, apesar de estar bem", teria que ficar um bom tempo hospitalizado.
Em tom alterado, Louise comeou a planejar como eles fariam para cuidar do rancho e visitar Pete no hospital, ao mesmo tempo. Gray, porm, interrompeu-a, o rosto lvido de sofrimento.
	Isso no importa mais, me.  Parecia que as palavras estavam matando alguma coisa dentro dele. Poderemos contratar alguns homens para nos ajudar, pelo tempo que for preciso. No quero falar sobre isso hoje...
	O que voc quer dizer com "poderemos"? Por qu, de repente, ns...
	Vamos vender o rancho, me. E o banco nos conceder o emprstimo se o rancho estiver  venda.
	Gray...
	Por favor, no discuta, me. Voc sabe que no temos outro jeito... No vou ficar aqui parado, assistindo voc se matar, como o vov quase fez hoje, porque voc no desiste de lutar. Eu no quero v-la negando-se a chance de conhecer seu neto e passar algum tempo com Mitch. O rancho est  venda. Assunto encerrado.
Ele sara da cozinha antes que uma trmula e espantada Louise recuperasse a fala.
Agora, enquanto guardava o pijama de Sam na mala, Jill sentia uma vontade insana de dizer a Gray e a Louise que ela ficaria no rancho. Ajudando-os, como os ajudara naquelas duas semanas.
Sam se vestiu e eles desceram para o caf da manh. O sol brilhava, derretendo a neve que cara no dia anterior. Gray e Louise estavam na cocheira.
Enquanto Sam se alimentava, Jill ouviu o clique da mquina de lavar. Ela colocou a roupa na secadora, e depois, lavou a loua do caf e deixou a cozinha em ordem. Minutos depois, Gray entrou.
	Estamos prontos  ela o avisou.
	Vou pegar a chave do carro. Mame vai conosco.
O trajeto de vinte minutos at Blue Rock foi rpido demais. Gray colocou a mochila de Jill na picape estacionada na garagem de Ron Thurrell.
	Esse veculo no lhe dar problemas  assegurou Ron.  Agora,  s cuidar da papelada.
Ele a conduziu at o escritrio, no fundo da garagem, e tirou uma pasta do arquivo. A mesa estava coberta de papis. Oramentos e notas ficais estavam misturados com documentos e aplices de seguros, e havia trs tipos diferentes de cartes de visita. Jill leu: Ron Thurrell, agente licenciado, Triple Car Insurance, Thurrell Car Rentals, filiado em todo pas e Thurrell Motors Repairs, oficina mecnica.
Thurrell entregou alguns papis para Jill. Ele parecia sbrio.
	Vamos esperar l fora  disse Gray.  Tudo bem, Jill?
	Tudo bem.
No havia necessidade de Gray e Louise esperarem. Poderiam despedir-se ali mesmo, e tudo estaria terminado. Jill j estava com os papis assinados do divrcio. Na noite anterior, Alan confirmara que os encontraria em Chicago, na quarta-feira, para umas frias de trs dias.
Mas ela no contestara a sugesto de Gray e Louise esperarem fora da garagem.
	Voc passou dias agradveis no rancho  Ron comentou em um tom bem-humorado. As palavras dele distraram-na do formulrio da locadora.
	Um pouco mais do que o planejado.
	Est voltando para o leste?
	Com uma parada em Chicago.
	A propsito, como esto os McCall?  ele perguntou de um modo bem casual.
	Muito bem.  Jill perguntou-se se Ron se lembrava da discusso com Gray, no churrasco dos Sheehans.
	Engraado, voc me lembra um rato desertando de um navio que est naufragando.  Ele sorriu com satisfao.  Soube que o velho Pete est no hospital. Quero ver como eles vo se arranjar agora.
	Oh, ele se arranjam.  A falsa alegria e confiana de Jill incomodaram-no, po/que, de repente, a gentileza dele desaparecera.
	Ora, pare com isso, dona!  ele disse irritado.  Para cima de mim? Do jeito que eles esto, at quando eles vo aguentar? Eles sabem que eu e minha irm queremos comprar as terras de nossa famlia. Por que no vend-las para ns? Eles no conseguiro ir longe sem o dinheiro...
Ron de calou bruscamente.
Um arrepio percorreu a espinha de Jill.
	Que dinheiro?  ela perguntou, desconfiada.
	Sem dinheiro, eu disse.
	No, sr. Thurrell, o senhor disse sem o dinheiro. Como se fosse uma importncia em particular. L no churrasco, o senhor tambm falou em dinheiro.
	No. Voc entendeu errado, dona.  Havia uma ameaa velada nas palavras dele.  Ele se inclinou na direo dela, e Jill percebeu que ele estava suando.  Voc entendeu errado.
	E mesmo?  Ela o encarou, desconfiada. Sem desviar os olhos, ela pegou um carto de visita e comeou gir-lo entre os dedos. Um gesto que traa seu mal-estar. Percebendo, ela colocou o carto na mesa depressa.
O olhar de Ron seguiu o som, e o dela baixou tambm, por um momento. Era um carto Triple Star Insurance. Aquele homem possua uma seguradora.
	Voc entendeu errado  ele repetiu, a voz aumentando a cada palavra.
	Voc disse que Frank sabia que precisava do dinheiro para investir no rancho que ele acabara de comprar. Voc disse...
	Ns no o roubamos.  Os olhares de ambos se sustentavam, e com a mo suada, ele segurou o pulso de Jill.  Fique fora disto, dona.  Ele estava quase gritando.   melhor voc se convencer de que este assunto no lhe diz respeito ou, acredite-me, voc vai se arrepender.
Tentando desvencilhar-se dele, Jill quase nem percebeu um movimento rpido a seu lado. Nem Ron. Os olhos dele estavam furiosamente fixos nos dela.
	Voc vai se arrepender  ele esbravejou.
	Como?  Jill aumentou deliberadamente o tom de voz. Sam desaparecera. Fora esse o movimento que ela vira pelo canto do olho. Ele fora buscar ajuda? Gray esperava do lado de fora. Ele ouviria se ela gritasse bem alto. Ele se encontraria com Sam.  Como, sr. Thurrell? O que exatamente est pensando em fazer comigo?
Na rua, esperando com a me, Gray ouviu o som de vozes alteradas, no momento em que Sam apareceu na porta. O rosto do menino estava lvido de medo.
	 aquele homem de novo!  ele gritou, agarrando o brao de Gray.  Aquele homem que me machucou no churrasco. Agora, ele vai machucar a mame, Gray. Acho que ele est muito bravo. Voc precisa ir l dentro e salvar minha me.
Os lbios de Sam comearam a tremer.
	Oh, meu bem...  Louise abraou-o.
Gray no esperou. Correu para a garagem. No fundo da mente, ele ainda pensou em Sam.
Ele procurou por mim. No momento de necessidade, ele confiou em mim. A constatao foi um osis de alegria, em meio a tantas preocupaes.
Ele entrou intempestivamente no escritrio e agarrou o pulso de Ron, obrigando-o a soltar Jill.
	O que est acontecendo aqui?  ele perguntou.  Que diabos est acontecendo aqui, Thurrell?
	Gray, ele... ele falou... alguma coisa sobre dinheiro  Jill balbuciou.  O dinheiro. Como se houvesse algum dinheiro para voc. Uma importncia em particular que  do conhecimento dele.  Ela pegou um carto de visitas e exibiu-o.  Seguro  ela disse devagar.  O seguro de Frank McCall.  isso, sr. Thurrell?
	Meu pai no tinha nenhuma aplice da Triple Star. Que diabos est acontecendo aqui, Thurrell?  ele repetiu pela terceira vez. Naquele momento, Louise entrou no escritrio.
O homem jogou-se na cadeira como um boneco de pano.
	Est bem  rendeu-se ele, escondendo o rosto com as mos suadas.  No sou um criminoso. Eu e minha irm apenas queramos o que deveria ser nosso. Foi tudo um grande erro. Ns no espervamos que vocs demorariam tanto para quebrar. Pensvamos que vocs desistiriam logo, alguns meses depois da morte de Frank.  Ele abriu os olhos e assustou-se com a expresso furiosa de Gray. - Acame-se. Eu vou contar tudo.
	Dr. Garrett, por favor, explique-nos tudo da maneira mais clara possvel  pediu Louise McCall.
J eram quase onze horas. Ela, Gray, Jill e Sam estavam sentados no escritrio de Haydon Garrett, advogado da famlia McCall desde longa data. Ele passara mais de uma hora apurando a verdade.
	 tudo muito simples. Frank McCall sabia exatamente o que estava fazendo ao comprar o Thurrell Creek, em dezembro passado. S que ele no teve tempo para explicar-lhe tudo, Gray.
	Eu sei disso, dr. Garrett.
	Assim que Stannard, seu pai e eu fechamos o negcio, Stannard foi direto  garagem de Ron Thurrell, contar a no vidade. Thurrell ficou furioso e saiu  procura de seu pai.
	A procura de meu pai...  repetiu Gray.
	Ele o encontrou em Main Street. Discutiram feio e seu pai ficou to nervoso que acabou tendo o enfarte. Ron chamou a ambulncia, e esperou alguns dias. Como Frank morreu sem recuperar a conscincia, Ron ficou livre para agir. Ou melhor, ele errou no modo de agir. Ele omitiu a verdade, pensando em beneficiar-se com a situao.
Haydon Garrett tirou um papel de dentro de um envelope e colocou-o diante de Louise, que examinou seu contedo inexpressivamente.
	Uma aplice de seguro de vida  ela disse.  E da? 
	Sim, uma aplice de seguro de vida, e muito generosa  confirmou o advogado.
	Eu no sabia. Esta no  a companhia que usamos para o seguro do rancho.  Louise respirou fundo.  Frank tinha um seguro de vida de valor to alto e nunca me contou em trinta anos de casamento. Deve ser por causa do meu filho mais velho. Qualquer assunto referente a dinheiro, ele guardava a sete chaves.
De novo, Garrett concordou.
	 verdade. Eu tambm no sabia desta aplice. Frank nunca me contou. Acreditem em mim.
	Por causa de Mitch  prosseguiu Louise.  Passou a ser um hbito ao longo da vida dele. Desde o comeo, Frank nunca confiou no meu filho.
	No, me.  A voz de Gray soou abafada.  No era bem assim. Era Mitch quem no confiava no papai." Papai sempre tentou...
	No, Gray  Louise interrompeu-o.  Os dois tiveram suas parcelas de culpa, mas a animosidade partiu de Frank. No  nada fcil eu admitir, mas  a verdade. Voc nunca percebeu. As diferenas entre ambos vm desde antes do seu nascimento. E tambm voc amava e admirava tanto seu pai, que jamais enxergaria seus defeitos. Ele era um bom homem. O melhor.  Louise respirou fundo, depois, prosseguiu:  Frank conhecera Blaine, antes de Blaine e eu nos casarmos, e nunca gostou dele. Desde o incio, Frank via a personalidade de Blaine manifestando-se fortemente em Mitch. Ele tentou, mas nunca aceitou o filho de Blaine. Ele no confiava no filho de Blaine.
Por isso, nunca houve amizade entre eles.
	Comeou com meu pai...  Gray repetiu.   difcil de acreditar....
A sala ficou silenciosa e o ar, tenso. O olhar de Gray parecia distante, perdido em pensamentos. Haydon Garrett quebrou o silncio.
	Como vocs podem ver, o valor desta aplice cobrir as despesas com a reconstruo de Thurrell Creek e com a manuteno de Flaming Hills.
	O que Ron e C.J. queriam?  Louise perguntou.
	Algo que eles quase conseguiram  disse o advogado.   For-los a vender-lhes Thurrel Creek. Temos muito que conversar ainda sobre isso. Vocs tm muito trabalho pela frente, e precisam pensar em como aplicar esse dinheiro para colocar aquele rancho em funcionamento o mais rpido possvel. Antes de tudo, porm, vocs precisam de algum tempo para pensar com calma.
	Eu... eu preciso ir  murmurou Jill, lanando um olhar para o relgio de pulso.  Passa das onze e Sam e eu temos que chegar em Trilby hoje  noite.
O advogado pareceu um tanto surpreso, mas no fez nenhum comentrio. Limitou-se s coisas prticas.
	Entendo. A polcia precisar do seu depoimento para saber exatamente o que ocorreu entre voc e o sr. Thurrell. Gray saber onde encontr-las claro.
	Sim, ele sabe.
Ouviu-se o arrastar das cadeiras.
	Estou muito feliz com as novidades  Jill disse a Louise.
Ela teria preferido dizer a Gray, mas no confiava em si mesma. Tinha medo de chorar. Era como se estivessem arrancando um rgo vital de dentro dela. As lgrimas contidas ardiam como cido e todos os msculos de seu corpo pareciam atrofiados.
	Obrigada  Louise agradeceu.
	Avise-nos quando voc chegar em casa  Gray pediu. 
Em sua boca, o gosto amargo de fel e as palavras pareciam ecoar em sua mente como se no tivessem o menor significado. Seu corpo estaria se transformando em fogo e cinzas? Parecia que sim.
	Eu sei.  Jill balanou a cabea, concordando. Um movimento vigoroso que sugeria impacincia para seguir seu rumo.  O depoimento  polcia. Manterei contato com vocs.
Os olhares de ambos se encontraram. Gray temeu que seus olhos trassem o inferno que desencadeava-se dentro dele. Nenhum dos dois sabia o que dizer nem o que fazer. Talvez no houvesse outra possibilidade a no ser essa. Dizer adeus. Simples e rapidamente.
	Vou acompanh-los at o carro.
	No  rejeitou bruscamente, como se ela quisesse realmente que fosse assim.
	Est bem...
Menos de um minuto depois, ele ouviu o barulho do motor do carro alugado. Ela acelerou, engatou a marcha e desceu a rua em direo  Interstate 15.
At quando vou ter que sorrir!?, Jill perguntou-se. O vestido prateado estava apertado e os sapatos apertavam-lhe os ps.
 o casamento de minha irm Cattie e eu estou feliz por ela. Patrick  um homem fabuloso, que a contempla como se ela tivesse estrelas nos olhos, do modo como Gray disse que o pai olhava para a me dele...
O msculos do rosto de Jill doam como jamais doeriam se o sorriso fosse espontneo. Em volta, os convidados comiam, danavam e riam. Ela fora apresentada a dezenas de membros da enorme famlia de Patrick Callahan, e j no se lembrava de seus nomes.
A salas imensas e formais da manso "da famlia van Shuyler estavam esplendidamente decoradas. Prima Pixie, elegante em seu vestido verde-gua e de brao com o simptico Clyde Ham-mond, dividia com Lauren van Shuyler, velha amiga de Patrick, a honra de ser madrinha do novo casal. Earl Waingwright, conselheiro de um clube aristocrtico da cidade, mais categrico do que Pixie e Lauren, insistia que o casamento no teria acontecido, se no fosse por ele. O que era verdade. Cat conhecera Patrick em um baile estilo Cinderela. Cat no era scia do clube e s conseguira o convite para o baile graas  influncia do conselheiro Waingwright.
	Ideia minha  disse Jill, lembrando-se que insistira para Cat ir ao baile.  Naquela poca, eu estava pensando muito em Cinderela.
Pensando em seu prprio baile de Cinderela em Las Vegas, e em como o simptico cowboy de Montana salvara-a de um casamento indesejado. Estranho. Ele a salvara por duas vezes. 
Gray salvara-a de um casamento publicitrio com algum bbado estranho, e salvara-a, com suas ideias sobre o amor, de um casamento ainda mais desastroso com Alan Jefmings.
As coisas desmoronaram rapidamente em Chicago. Eles voltaram na quinta-feira, antecipando em dois dias o final das curtas frias. No por culpa de Alan. Ningum teve culpa.
Ele reservara quartos conjugados em um hotel modesto, e na quarta-feira  noite, saram para comer pizza. L pelas nove da noite, Sam j adormecera, a porta de comunicao estava aberta e alguma coisa poderia ter acontecido. Qualquer coisa deveria ter acontecido. Alan pedira flores, vela, sobremesa e caf. E comprara-lhe um anel.
	Creio que no preciso tir-lo da caixa, no ?  ele perguntara, observando-a com os astutos olhos azuis.
	No, melhor no. Voc... ter que devolv-lo, Alan.
	O que aconteceu em Montana? A magia no acabou?
	No...
	Ento, por que voc no ficou?
	Nem sempre a magia funciona, acho. Magia no  suficiente.
Intuio, Gray afirmara. O amor comea com intuio e cresce lentamente, como o rflusgo crescendo na rvore. Mas no tivera chance para isso. Muitas coisas no caminho.
	No, no  suficiente  Alan concordou.  Minha esposa e eu comeamos com magia e conseguimos construir uma vida juntos. Tivemos sorte. Eu... eu ainda sofro por isso. Pensei que com voc, funcionaria de outro modo. Que comearamos com o companheirismo e que a magia viria depois.
	Isso no vai acontecer, Alan.
	Estou percebendo. Voc sabe, em muitas coisas, eu ainda sinto muito a falta de Maureen...
De comum acordo, eles fecharam a porta de comunicao e cada um dormiu em seu respectivo quarto. Na manh seguinte, fecharam a conta e voltaram para casa. Jill chegou a tempo de ajudar nos preparativos do casamento-relmpago de Cat. De repente, porm, em algum lugar dentro dela, teria preferido perder o casamento. Na noite anterior, ela assistira pela televiso, o casal remanescente da Maratona do Casamento de Cinderela receber o prmio a que fizera jus. Entrevistados, os noivos anunciaram os planos de divrcio imediato.
Para seu gosto, Jill sentia que tivera casamentos demais.
Catrina aproximou-se dela. Os cabelos longos e loiros como um halo dourado, as faces rosadas, os olhos brilhantes... e mordiscando o lbio inferior.
Pronto. Ela percebeu meu sorriso forado. E est preocupada. Logo, porm, Jill descobriu que a preocupao da irm era outra.
	Oh, Jill  disse Cat, apertando-lhe as mos.  Espero ter feito a coisa certa.
	Claro que fez, Cattie! Patrick ...
	No  isso.  que...  As faces dela coraram ainda mais e os lbios se curvaram em um sorriso bonito.   que telefonaram para voc, hoje de manh. Bem, perguntaram por voc... e eu disse a ele... Bem,  o seguinte... ele est...
Cat olhou sobre o ombro, em direo  porta principal. Ela recuou e fez gesto tmido com a mo.
	Jill, ele est aqui.
Grayson. Grayson McCall.
	Gray...
L estava ele, de terno azul-marinho, inseguro. Seu chapu de cowboy no estava  vista. Ento, ele avistou Jill e a insegurana desapareceu. Ela comeou a andar na direo dele. As pessoas foram se afastando, abrindo-lhe passagem. E quanto eles se encontraram, ouviu-se um murmurinho de vozes curiosas.
Eles no se importaram com isso. Gray pegou Jill pela mo e levou-a para o terrao. Ele se encostou no pilar como se estivesse se encostando no tronco de uma rvore de Montana. Ele a abraou e Jill aninhou-se nos braos dele.
	Tudo aquilo que eu falei sobre o amor, intuio...  ele comeou.
	Era tudo verdade, Gray  ela o interrompeu.  Tenho pensando muito a respeito. Eu no vou me casar...
Ignorando a interrupo, Gray continuou:
	...era tudo bobagem. Quando o amor  verdadeiro, ele no cresce devagar. Ele... Ora, ele explode! E no temos tempo para pensar, para planejar, para...  Ele se calou, baixou os olhos, como se esperasse encontrar o chapu nas mos, para gir-los entre os dedos, antes de coloc-lo novamente na cabea. Mas o chapu no estava l. Ele tornou a fit-la.  Eu telefonei, e disse  sua irm que eu estava chegando. Ela me falou que voc estaria aqui. No casamento dela... Oh, Jill, eu a amo. Quero me casar com voc.
	Mas, Gray, ns j somos...
	Sim, sim. Eu sei que j somos casados. Eu sei disso, Jill. Mas na primeira vez, no foi como deveria ser. Isto , nenhum de ns dois queria casar realmente, no  mesmo? Eu quero casar novamente, s que agora, com sentimento, com o corao. Com amor, Jill. E no quero esperar. Quero que voc volte comigo. Voc e Sam. Ele confia em mim, e eu gosto dele. Mame tambm quer que vocs voltem. Alis, ela no se conforma por eu t-la deixado vir embora. Voc faz parte da minha vida, Jill. Voc faz parte do rancho; Voc e Sam.
	Eu gosto do rancho, de sua me e...
	Eu no estou mais lutando as batalhas do meu pai, e tenho certeza de que seremos felizes. Voc se casou legalmente comigo em maro, com um vestido emprestado. Seria possvel pedir outro vestido emprestado e casar-se novamente comigo, esta noite? Com muito amor, desta vez.
Gray no esperou pela resposta. Talvez, no acreditando muito nas palavras, ele resolveu ser mais convincente. Tomando o rosto de Jill entre as mos, beijou-a apaixonadamente. Seus dedos estavam trrriulos.
Jill mal conseguia respirar. Ela no sabia se era por causa do beijo de Gray ou por estar chorando. Chorando de felicidade.
	De Cat?  ela murmurou entre beijos e lgrimas.  Pedir o vestido de Cat? Oh, sim! Eu o amo... Sim, Gray.
Assim, a aristocrtica manso da famlia van Shuyler, na cidade de Mercer, Nova Jrsei, foi palco de um segundo casamento, naquela noite. Lauren van Shuyler emprestara o vestido de noiva a Cat. Agora, Cat vestira as roupas para a viagem de lua-de-mel e emprestara o vestido de Lauren para Jill, que ia se casar com o cowboy de Montana, pela segunda vez.
	Segunda e ltima?  ele perguntou mais tarde, j de volta  casa de Pixie.
Sam estava dormindo, e Jill e Gray conversavam na sala de visitas.
	Eu gostaria que sua me e seu av estivessem aqui, esta noite, Gray.
	Meu av ainda est no hospital. Assim que ele voltar para casa, minha me vai visitar Mitch, Lena e o pequeno Cody, em Las Vegas. Lena telefonou dias atrs, anunciando o noivado deles.
	Teria sido muito bom se eles tambm estivessem aqui conosco.
	Pelo jeito, acho que teremos que providenciar outro vestido de noiva e um terceiro casamento, assim que voltarmos para casa. E com toda famlia reunida.
	Voltarmos para casa  ela repetiu.  Soa to bom!
	Suas irms podero nos visitar sempre que quiserem.
	Casar-se com voc poder tornar-se um hbito...
	Por qu no? Voc fica to bonita vestida de noiva! Foi o que pensei desde a primeira vez que a vi.
	E mesmo, cowboy?
	Sim, querida.
E eles se beijaram. Um beijo longo, suave, lento. E como na noite em que Jill e Gray se conheceram em Las Vegas, no dormiram antes do dia raiar.

FIM
